Aprendizado Não Supervisionado
2026-10-04
O Paradigma da Reconstrução
A Ruptura de Paradigma
Em 2 dimensões, é matematicamente impossível reconstruir 30 ou 784 variáveis sem perder a maior parte da informação. Se o critério for errar o mínimo nas distâncias globais, a estrutura de vizinhanças locais é completamente esmagada.
O Fenômeno de Concentração de Volume
O Efeito da Cauda Pesada
A cauda pesada permite empurrar aglomerados distantes para longe no plano, liberando o interior para revelar com extrema fidelidade quem é vizinho de quem.
O Teste Prático no MNIST (\(D=784 \to d=2\))
Projetar \(N=1.500\) dígitos em 2D sem supervisão por PCA, MDS e t-SNE.
O Tetraedro no Plano
Se tivermos 4 pontos mutuamente equidistantes em \(\mathbb{R}^3\) (os vértices de um tetraedro regular tridimensional), é geometricamente possível posicioná-los em uma folha plana \(\mathbb{R}^2\) de modo que as 6 distâncias entre pares permaneçam exatamente iguais?
V ou F: Restrições Geométricas em Baixa Dimensão
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
V ou F: Resposta
Voltando à pergunta: No plano \(\mathbb{R}^2\), só cabem 3 pontos mutuamente equidistantes (um triângulo equilátero). O quarto ponto teria que ficar no baricentro, cuja distância aos vértices é \(1/\sqrt{3} \approx 0{,}58 \neq 1\). Em \(D\) dimensões, podemos ter \(D+1\) vizinhos equidistantes. É impossível manter todas as distâncias ao mesmo tempo em 2D; somos obrigados a escolher preservar a vizinhança local.
A Pergunta Fundamental do MDS
Dada apenas uma tabela com as distâncias \(d_{ij}^{(X)} = \|\mathbf{x}_i - \mathbf{x}_j\|\) entre todos os pares de cidades (sem GPS nem latitude), como posicionar os pontos em uma folha plana 2D?
Duas Filosofias de Resolução
A Função de Custo Stress (Kruskal, 1964)
\[\text{Stress}(\mathbf{Y}) = \sqrt{ \frac{\sum_{i < j} \left( d_{ij}^{(X)} - \|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\| \right)^2}{\sum_{i < j} (d_{ij}^{(X)})^2} }\]
O Dilema da Projeção \(D \to 2\)
Em \(D=784\) (MNIST) ou \(D=30\), é geometricamente impossível que o Stress seja zero no plano. Onde o algoritmo decide concentrar o erro inevitável?
O Balanço Perverso de Penalidades Quadráticas
Comparação entre dois erros em um mesmo mapa 2D:
O algoritmo prefere sacrificar a estrutura interna de um cluster em 100% para evitar um desvio de 4% entre pontos afastados!
A Assimetria Combinatória dos Dados
Em qualquer dataset com múltiplos clusters, há muito mais pares distantes do que vizinhos locais:
O Sequestro do Gradiente
Mais de \(90\%\) do gradiente do Stress gasta sua força ajustando distâncias entre classes opostas. Os clusters individuais são esmagados no centro.
As Correções Clássicas nos Softwares Estatísticos
Como a literatura tentou combater a tirania das distâncias longas?
Por Que as Correções Métricas Falham em 2D?
Duas limitações intrínsecas e incontornáveis:
A Ruptura Necessária: O Salto Probabilístico
Em vez de tentar preservar distâncias euclidianas numéricas rígidas, devemos modelar a probabilidade estocástica de vizinhança local com variâncias adaptativas (o SNE e o t-SNE!).
Erro Absoluto vs. Erro Relativo no MDS
Se um algoritmo de redução de dimensionalidade minimiza \(\sum_{i<j} (d_{ij}^{(X)} - d_{ij}^{(Y)})^2\), qual dos seguintes desvios gera maior aumento na função de custo? - (A) Uma distância entre vizinhos imediatos que era \(0{,}5\) e virou \(2{,}5\). - (B) Uma distância entre pontos de clusters distintos que era \(40{,}0\) e virou \(37{,}0\).
V ou F: Propriedades do MDS
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
V ou F: Resposta
Voltando à pergunta: O caso (B) gera \((40 - 37)^2 = 9{,}0\), enquanto o caso (A) gera \((0{,}5 - 2{,}5)^2 = 4{,}0\). O algoritmo prefere tolerar que dois vizinhos se afastem em 400% do que permitir uma variação de 7,5% em pontos distantes.
De Distância Rígida para Probabilidade de Vizinhança (Hinton & Roweis, 2002)
Em vez de fixar \(d_{ij} \in \mathbb{R}\), calculamos a probabilidade de \(\mathbf{x}_i\) escolher \(\mathbf{x}_j\) como vizinho: \[p_{j|i} = \frac{\exp(-\|\mathbf{x}_i - \mathbf{x}_j\|^2 / 2\sigma_i^2)}{\sum_{k \ne i} \exp(-\|\mathbf{x}_i - \mathbf{x}_k\|^2 / 2\sigma_i^2)}, \quad p_{i|i} = 0\]
O Dilema do \(\sigma\): Densidade Heterogênea
A Solução: Inverter a Lógica
Em vez de chutar desvios padrões \(\sigma_i\), o usuário estipula o número desejado de vizinhos: \[\text{Perp}(P_i) = 2^{H(P_i)}, \quad H(P_i) = -\sum_{j \ne i} p_{j|i} \log_2 p_{j|i}\]
O Objetivo Fundamental da Otimização
Temos duas distribuições sobre as relações entre os dados:
Por Que Divergência KL e Simetrização?
\[p_{ij} = \frac{p_{j|i} + p_{i|j}}{2N}, \quad C(\mathbf{Y}) = \mathrm{KL}(P \parallel Q) = \sum_{i \ne j} p_{ij} \ln \frac{p_{ij}}{q_{ij}(\mathbf{Y})}\]
O Mecanismo da KL: \(p_{ij} \ln(p_{ij} / q_{ij})\)
Efeito Prático
O SNE foca 100% de sua energia em não separar vizinhos. Ele não se importa com a distância exata entre clusters distantes.
O Comportamento da Divergência KL
Por que a formulação \(\mathrm{KL}(P \parallel Q)\) tolera que dois clusters não relacionados se aproximem no mapa 2D, mas proíbe terminantemente que um cluster homogêneo seja partido ao meio? O que mudaria se minimizássemos a divergência inversa \(\mathrm{KL}(Q \parallel P)\)?
Dica para discussão: Analise o fator que multiplica o logaritmo em cada caso quando \(p_{ij}=0\) ou \(q_{ij}=0\).
V ou F: SNE e Perplexidade
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
V ou F: Resposta
Voltando à pergunta: Quando \(p_{ij} \approx 0\) (pontos de clusters diferentes), o termo \(p_{ij} \ln(p_{ij}/q_{ij})\) zera, não importando o valor de \(q_{ij}\). Já se minimizássemos \(\mathrm{KL}(Q \parallel P) = \sum q_{ij} \ln(q_{ij}/p_{ij})\), o algoritmo sofreria custo infinito se \(q_{ij} > 0\) e \(p_{ij} = 0\), tornando-se obsessivo em afastar pontos mesmo à custa de espalhar vizinhos.
Por Que a Gaussiana no Espaço de Alta Dimensão (\(\mathbb{R}^D\))?
Por Que \(2\sigma^2 = 1\) no Mapa 2D (\(\mathbb{R}^2\))?
No SNE original, adotou-se o mesmo modelo gaussiano no mapa: \[q_{ij} \propto \exp(-\|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\|^2 / 2\sigma^2)\] - As coordenadas \(\mathbf{y}_i\) são variáveis livres da otimização. - Mudar \(\sigma\) equivale meramente a reescalar globalmente o mapa 2D (invariância de escala). - Fixar \(2\sigma^2 = 1\) simplifica a fórmula sem qualquer perda de generalidade.
O Decaimento Superexponencial da Gaussiana \(\exp(-d^2)\)
| Distância \(d\) | Afinidade \(\exp(-d^2)\) | Comportamento |
|---|---|---|
| \(d = 1\) | \(\approx 0{,}368\) | Vizinho próximo |
| \(d = 2\) | \(\approx 0{,}018\) | Decréscimo acentuado |
| \(d = 3\) | \(\approx 1{,}2 \times 10^{-4}\) | Quase desprezível |
| \(d = 4\) | \(\approx 1{,}1 \times 10^{-7}\) | Praticamente zero absoluto |
A Armadilha na Perda KL
O Colapso em 2D
O disco de raio 2 tem área \(\pi(2)^2 \approx 12{,}6\). Não há espaço para acomodar dezenas de clusters: todos colapsam em uma massa central única.
1. A Densidade Student-\(t\) com \(\nu=1\) (Cauchy)
\[f(t; \nu=1) = \frac{\Gamma(1)}{\sqrt{\pi}\,\Gamma(1/2)} \left(1 + t^2\right)^{-1} = \frac{1}{\pi(1 + t^2)} \propto \mathbf{\frac{1}{1 + t^2}}\]
2. Similaridade entre Pontos 2D
Substituindo \(t\) pela distância euclidiana \(\|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\|\): \[k(\mathbf{y}_i, \mathbf{y}_j) = \frac{1}{1 + \|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\|^2} = (1 + \|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\|^2)^{-1}\]
3. Probabilidade Conjunta Normalizada \(q_{ij}\)
\[q_{ij} = \frac{(1 + \|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\|^2)^{-1}}{\sum_{k \ne l} (1 + \|\mathbf{y}_k - \mathbf{y}_l\|^2)^{-1}}, \quad q_{ii} = 0\]
Gaussiana vs. Student-\(t\): O Contraste das Caudas
O Efeito no Mapa 2D
Clusters não correlacionados são empurrados para a periferia sem penalidade, liberando o interior do mapa para acomodar os detalhes locais.
O Problema de Otimização Contínua
\[\min_{\mathbf{Y} \in \mathbb{R}^{N \times 2}} C(\mathbf{Y}) = \mathrm{KL}(P \parallel Q) = \sum_{i \ne j} p_{ij} \ln \left( \frac{p_{ij}}{q_{ij}(\mathbf{Y})} \right)\]
Decomposição em Entropia Cruzada
\[C(\mathbf{Y}) = \underbrace{\sum_{i \ne j} p_{ij} \ln p_{ij}}_{-H(P) \text{ (constante)}} - \sum_{i \ne j} p_{ij} \ln q_{ij}(\mathbf{Y})\] Minimizar \(C(\mathbf{Y})\) é exatamente maximizar a probabilidade de vizinhança \(\sum p_{ij} \ln q_{ij}(\mathbf{Y})\).
Equação Fundamental do Gradiente (van der Maaten & Hinton, 2008)
\[\frac{\partial C}{\partial \mathbf{y}_i} = 4 \sum_{j \ne i} \underbrace{(p_{ij} - q_{ij})}_{\text{desbalanço}} \underbrace{(1 + \|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\|^2)^{-1}}_{\text{amortecimento}} (\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j)\]
O Equilíbrio Físico
O mapa final estabiliza quando a atração local dos verdadeiros vizinhos cancela exatamente a pressão de repulsão do restante do conjunto.
Por Que a Student-\(t\) Alivia o Confinamento?
Se a probabilidade \(p_{ij}\) calculada no espaço de alta dimensão vale \(0{,}01\), explique por que a distância euclidiana \(\|\mathbf{y}_i - \mathbf{y}_j\|\) necessária para igualar \(q_{ij} = 0{,}01\) é muito maior sob a curva da Student-\(t\) do que sob uma curva gaussiana no mapa 2D. O que acontece com os clusters no mapa como consequência disso?
Dica para discussão: Compare a inclinação e a altura da cauda das duas funções para distâncias moderadas no gráfico anterior.
V ou F: t-SNE e o Kernel de Cauchy
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
V ou F: Resposta
Voltando à pergunta: Como a Student-\(t\) tem cauda pesada, para atingir uma probabilidade moderada como \(0{,}01\) o valor de \(d\) pode ser consideravelmente maior do que na Gaussiana (onde a curva despenca rapidamente para zero). Isso permite que clusters diferentes fiquem afastados no mapa 2D sem sofrer penalidade na divergência KL, liberando espaço central.
O Espectro de Granularidade
1. Distâncias entre clusters NÃO medem distâncias reais
Quando \(p_{ij} \approx 0\), não há força de atração entre os grupos. A distância inter-cluster no mapa é mero artefato da repulsão no plano e da inicialização.
2. Tamanho visual NÃO reflete densidade ou variância
Como \(\sigma_i\) se adapta localmente via perplexidade, clusters densos são “inflados” e clusters esparsos são “comprimidos” no mapa.
3. t-SNE pode encontrar clusters em RUÍDO PURO
Flutuações estocásticas em amostras finitas podem ser organizadas em ilhas aparentes. Nunca conclua existência de clusters apenas olhando o t-SNE.
4. NÃO é um modelo preditivo paramétrico
Não existe função \(\mathbf{y} = f(\mathbf{x})\). Não é possível projetar um ponto novo de teste sem reotimizar todo o conjunto.
Diagnóstico de Interpretação
Um bioinformata executa o t-SNE sobre dados de expressão gênica e observa que o “Cluster A” tem um diâmetro visual de \(5\text{ cm}\) e o “Cluster B” tem um diâmetro de apenas \(1\text{ cm}\). Além disso, a distância entre os centros dos dois clusters no gráfico é de \(15\text{ cm}\).
V ou F: Armadilhas do t-SNE
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
V ou F: Resposta
Voltando à pergunta: Ambas as conclusões são falácias clássicas. A área do cluster no mapa reflete a adaptação local de \(\sigma_i\) via perplexidade (não a variância genética), e a distância de \(15\text{ cm}\) entre os clusters reflete apenas a repulsão eletrostática no plano após \(p_{ij}\) anular-se (não a distância filogenética real).
Limitações do t-SNE
O Que Vem a Seguir
UNICAMP — Instituto de Computação