A \Phi(V) do modelo de tempo discreto é a probabilidade de que o neurônio dispare pelo menos uma vez no próximo passo dt, se o potencial for V. Sua \phi(V) é 1/\tau(V), onde \tau(V) é o tempo médio até o próximo disparo, se o potencial for V. Em teoria, as duas estão relacionadas pelas fórmulas de Poisson. Ou seja \Phi(V) = 1 - exp[-\phi(V) dt] e \phi(V) = -ln[1-\Phi(v)]/dt. Mas note que, à medida que \Phi(V) se aproxima de 1, o \phi(V) cresce sem limite; e a relação vai ficando menos precisa. Ou seja, se escolhermos \Phi(V) 0.999 em vez de 0.99, com dt = 1 ms, o valor equivalente para \phi(V) vai de ~4600 Hz (disparos por segundo) para ~6900 Hz. E se escolhermos \Phi(V) = 1 para V acima de um limiar de saturação Vs (como é geralmente feito nas simulações de tempo discreto), então o \phi(V) equivalente deveria ser +oo para V > Vs. Até aqui não há nenhum problema teórico. Mas se a simulação por tempo contÃnuo faz sentido ou não depende do objetivo. O Antonio e a Eva definiram o modelo GL desse jeito -- "o tempo até o próximo disparo do neurônio é definido por um processo de Poisson com taxa \phi(V), onde \phi é uma função fixa que só depende de V". E provaram vários teoremas matematicamente para esse modelo. Então, *SE O OBJETIVO É OFERECER UMA VALIDAÇÃO EXPERIMENTAL DESSES TEOREMAS*, não há o que discutir: tem que implementar o modelo desse jeito mesmo, escolhendo uma \phi conforme as hipóteses desses teoremas, e gerando o tempo do próximo disparo por um processo com a estatÃstica PRECISA de Poisson. Para este objetivo, a fidelidade ao modelo teórico é mais importante que a eficiência. E, na verdade, por conta dessa exigência, o tempo vai ser maior do que o de uma simulação de tempo discreto de uma rede do mesmo tamanho, mesmo para redes pequenas com poucos milhares de neurônios. Por exemplo, suponha que há N = 1000 neurônios, cada um com m = 200 sinapses, com taxa média de disparo \rho de 10 Hz por neurônio. Então cada neurônio vai receber impulsos à taxa m*\rho = 2000 Hz, em média. O cálculo do próximo tempo de disparo para cada neurônio precisa ser refeito com essa taxa; no total, são N*m*\rho = 2 milhão de recálculos por segundo simulado. Esse número é o dobro do número de cálculos da \Phi na simulação com tempo discreto com passo de 1 ms. Note que esta conta supõe que apenas os neurônios pós-sinápticos são recalculados. Se a \phi tiver que ser calculada para todos os neurônios a cada iteração, serão N cáculos da \phi para cada disparo na rede, ou seja (N*\rho)*N = N^2*\rho = 10 milhões de recálculos por segundo simulado. Portanto, *SE O OBJETIVO FOR OBTER UMA SIMULAÇÃO APROXIMADA DE UMA REDE COM CUSTO BAIXO*, não creio que a simulação com tempo contÃnuo seja um caminho para isso. Mesmo com as otomizações que eu descrevi na outra mensagem. Mesmo *SE O OBJETIVO FOR OBTER UMA SIMULAÇÃO COM MAIOR RESOLUÇÃO TEMPORAL* que 1 ms, por exemplo para simular STDP, eu diria que é mais prático e eficiente usar a abordagem de tempo discreto com um passo dt menor (como 0.1 ms em vez de 1 ms) em vez de fazer por tempo contÃnuo. Intuitivamente, o efeito principal da discretização do tempo é introduzir atrasos aleatórios, da ordem de dt, nos tempos de chegada dos impulsos sinápticos e nos momentos de disparo. Se o passo for suficientemente menor que a janela de tempo do processo STDP, esses atrasos espúrios não devem fazer diferença. Note que o atraso axonal é desconhecido e portanto chutado, qualquer que seja o método usado. E *SE O OBJETIVO FOR OBTER UMA SIMULAÇÃO MAIS REALISTA DE REDES REAIS*, então eu não vejo porque a simulação com tempo contÃnuo seria melhor que uma com tempo discreto. Embora o tempo seja contÃnuo nas redes reais, os dois modelos tem tantas aproximações e parãmetros desconhecidos que simular esse detalhe não vai fazer diferença sensÃvel, e pode até piorar. Num neurônio real, o tempo de próximo disparo NÃO é definido por um processo de Poisson com taxa \phi(V); tem que considerar o histórico recente do V, a forma dos pulsos sinápticos, efeitos não-lineares, etc.. Posso imaginar situações tais que, na simulação desse modelo com tempo contÃnuo, um neurônio acaba disparando a uma taxa muito maior que seu limite real de 1 kHz...