# Last edited on 2025-10-11 11:49:03 by stolfi # Dom Casmurro, Chapters 3, 13, ... 73, Portuguese, 1899 spelling. # \chapt{III}{A denuncia.} Ia a entrar na sala de visitas, quando ouvi proferir o meu nome e escondi-me atraz da porta. A casa era a da rua de Matacavallos, o mez Novembro, o anno é que é um tanto remoto, mas eu não hei de trocar as datas á minha vida só para agradar ás pessoas que não amam historias velhas; o anno era de 1857. --- D.~Gloria, a senhora persiste na ideia de metter o nosso Bentinho no seminario? É mais que tempo, e já agora póde haver uma difficuldade. --- Que difficuldade? --- Uma grande difficuldade. Minha mãe quiz saber o que era. José Dias, depois de alguns instantes de concentração, veiu ver se havia alguem no corredor; não deu por mim, voltou e, abafando a voz, disse que a difficuldade estava na casa ao pé, a gente do Padua. --- A gente do Padua? --- Ha algum tempo estou para lhe dizer isto, mas não me atrevia. Não me parece bonito que o nosso Bentinho ande mettido nos cantos com a filha do \emph{Tartaruga}, e esta é a difficuldade, porque se elles pegam de namoro, a senhora terá muito que lutar para separal-os. --- Não acho. Mettidos nos cantos? --- É um modo de falar. Em segredinhos, sempre juntos. Bentinho quasi que não sae de lá. A pequena é uma desmiolada; o pae faz que não vê; tomara elle que as cousas corressem de maneira, que... Comprehendo o seu gesto; a senhora não crê em taes calculos, parece-lhe que todos têm a alma candida... --- Mas, Sr.~José Dias, tenho visto os pequenos brincando, e nunca vi nada que faça desconfiar. Basta a edade; Bentinho mal tem quinze annos. Capitú fez quatorze á semana passada; são dous creançolas. Não se esqueça que foram criados juntos, desde aquella grande enchente, ha dez annos, em que a familia Padua perdeu tanta cousa; d'ahi vieram as nossas relações. Pois eu hei de crer...? Mano Cosme, você que acha? Tio Cosme respondeu com um «Ora!» que. traduzido em vulgar, queria dizer: «São imaginações do José Dias; os pequenos divertem-se, eu divirto-me; onde está o gamão?» --- Sim, creio que o senhor está enganado. --- Póde ser, minha senhora. Oxalá tenham razão; mas creia que não falei senão depois de muito examinar... --- Em todo caso, vae sendo tempo, interrompeu minha mãe; vou tratar de mettel-o no seminario quanto antes. --- Bem, uma vez que não perdeu a ideia de o fazer padre, tem-se ganho o principal. Bentinho ha de satisfazer os desejos de sua mãe. E depois a egreja brasileira tem altos destinos. Não esqueçamos que um bispo presidiu a Constituinte, e que o padre Feijó governou o imperio... --- Governou como a cara d'elle! atalhou tio Cosme, cedendo a antigos rancores politicos. --- Perdão, doutor, não estou defendendo ninguem, estou citando. O que eu quero é dizer que o clero ainda tem grande papel no Brasil. --- Você o que quer é um capote; ande, vá buscar o gamão. Quanto ao pequeno, se tem de ser padre, realmente é melhor que não comece a dizer missa atraz das portas. Mas, olhe cá, mana Gloria, ha mesmo necessidade de fazel-o padre? --- É promessa, ha de cumprir-se. --- Sei que você fez promessa... mas, uma promessa assim... não sei... Creio que, bem pensado... Você que acha, prima Justina? --- Eu? --- Verdade é que cada um sabe melhor de si, continuou tio Cosme; Deus é que sabe de todos. Comtudo, uma promessa de tantos annos... Mas, que é isso, mana Gloria? Está chorando? Ora esta! Pois isto é cousa de lagrimas? Minha mãe assoou-se sem responder. Prima Justina creio que se levantou e foi ter com ella. Seguiu-se um alto silencio, durante o qual estive a pique de entrar na sala, mas outra força maior, outra emoção... Não pude ouvir as palavras que tio Cosme entrou a dizer. Prima Justina exhortava: «Prima Gloria! prima Gloria!» José Dias desculpava-se: «Se soubesse, não teria falado, mas falei pela veneração, pela estima, pelo affecto, para cumprir um dever amargo, um dever amarissimo...» # \chapt{XIII}{Capitú.} De repente, ouvi bradar uma voz de dentro da casa ao pé: --- Capitú! E no quintal: --- Mamãe! E outra vez na casa: --- Vem cá! Não me pude ter. As pernas desceram-me os tres degraus que davam para a chacara, e caminharam para o quintal visinho. Era costume dellas, ás tardes, e ás manhãs tambem. Que as pernas tambem são pessoas, apenas inferiores aos braços, e valem de si mesmas, quando a cabeça não as rege por meio de ideias. As minhas chegaram ao pé do muro. Havia alli uma porta de communicação mandada rasgar por minha mãe, quando Capitú e eu eramos pequenos. A porta não tinha chave nem taramela, abria-se empurrando de um lado ou puxando de outro, e fechava-se ao peso de uma pedra pendente de uma corda. Era quasi que exclusivamente nossa. Em creanças, faziamos visita batendo de um lado, e sendo recebidos do outro com muitas mesuras. Quando as bonecas de Capitú adoeciam, o medico era eu. Entrava no quintal della com um pau debaixo do braço, para imitar o bengalão do doutor João da Costa; tomava o pulso á doente, e pedia-lhe que mostrasse a lingua. «É surda, coitada!» exclamava Capitú. Então eu cocava o queixo, como o doutor, e acabava mandando applicar-lhe umas sanguesugas ou dar-lhe um vomitorio: era a therapeutica habitual do medico. --- Capitú! --- Mamãe! --- Deixa de estar esburacando o muro; vem cá. A voz da mãe era agora mais perto, como so viesse já da porta dos fundos. Quiz passar ao quintal, mas as pernas, ha pouco tão andarilhas, pareciam agora presas ao chão. Afinal fiz um esforço, empurrei a porta, e entrei. Capitú estava ao pé do muro fronteiro, voltada para elle, riscando com um prego. O rumor da porta fel-a olhar para traz; ao dar commigo, encostou-se ao muro, como se quizesse esconder alguma cousa. Caminhei para ella; naturalmente levava o gesto mudado, porque ella veiu a mim, e perguntou-me inquieta: --- Que é que você tem? --- Eu? Nada. --- Nada, não; você tem alguma cousa. Quiz insistir que nada, mas não achei lingua. Todo eu era olhos e coração, um coração que desta vez ia sair, com certeza, pela bocca fóra. Não podia tirar os olhos daquella creatura de quatorze annos, alta, forte e cheia, apertada em um vestido de chita, meio desbotado. Os cabellos grossos, feitos em duas tranças, com as pontas atadas uma á outra, á moda do tempo, desciam-lhe pelas costas. Morena, olhos claros e grandes, nariz recto e comprido, tinha a bocca fina e o queixo largo. As mãos, a despeito de alguns officios rudes, eram curadas com amor; não cheiravam a sabões finos nem aguas de toucador, mas com agua do poço e sabão commum trazia-as sem macula. Calçava sapatos de duraque, rasos e velhos, a que ella mesma dera alguns pontos. --- Que é que você tem? repetiu. --- Não é nada, balbuciei finalmente. E emendei logo: --- É uma noticia. --- Noticia de quê? Pensei em dizer-lhe que ia entrar para o seminario e espreitar a impressão que lhe faria. Se a consternasse é que realmente gostava de mim; se não, é que não gostava. Mas todo esse calculo foi obscuro e rapido; senti que não poderia falar claramente, tinha agora a vista não sei como... --- Então? --- Você sabe... Nisto olhei para o muro, o logar em que ella estivera riscando, escrevendo ou esburacando, como dissera a mãe. Vi uns riscos abertos, e lembrou-me o gesto que ella fizera para cobril-os. Então quiz vel-os de perto, e dei um passo. Capitú agarrou-me, mas, ou por temer que eu acabasse fugindo, ou por negar de outra maneira, correu adeante e apagou o escripto. Foi o mesmo que accender em mim o desejo de ler o que era. # \chapt{XXIII}{Prazo dado.} --- Preciso falar-lhe amanhã, sem falta; escolha o logar e diga-me. Creio que José Dias achou desusado este meu falar. O tom não me sairia tão imperativo como eu receiava, mas as palavras o eram, e o não interrogar, não pedir, não hesitar, como era proprio da creança e do meu estylo habitual, certamente lhe deu ideia de uma pessoa nova e de uma nova situação. Foi no corredor, quando iamos para o chá; José Dias vinha andando cheio da leitura de Walter Scott que fizera a minha mãe e a prima Justina. Lia cantado e compassado. Os castellos e os parques saíam maiores da bocca delle, os lagos tinham mais agua e a «abobada celeste» contava alguns milhares mais de estrellas centelhantes. Nos dialogos, alternava o som das vozes, que eram levemente grossas ou finas, conforme o sexo dos interlocutores, e reproduziam com moderação a ternura e a colera. Ao despedir-se de mim, na varanda, disse-me elle: --- Amanhã, na rua. Tenho umas compras que fazer, você póde ir commigo, pedirei a mamãe. É dia de licção? --- A licção foi hoje. --- Perfeitamente. Não lhe pergunto o que é; affirmo desde já que é materia grave e pura. --- Sim, senhor. --- Até amanhã. Fez-se tudo o melhor possivel. Houve só uma alteração: minha mãe achou o dia quente e não consentiu que eu fosse a pé; entrámos no omnibus, á porta de casa. --- Não importa, disse-me José Dias; podemos apear-nos á porta do Passeio Publico. # \chapt{XXXIII}{O penteado.} Capitú deu-me as costas, voltando-se para o espelhinho. Peguei-lhe dos cabellos, colhi-os todos e entrei a alisal-os com o pente, desde a testa até as ultimas pontas, que lhe desciam á cintura. Em pé não dava geito: não esquecestes que ella era um nadinha mais alta que eu, mas ainda que fosse da mesma altura. Pedi-lhe que se sentasse. --- Senta aqui, é melhor. Sentou-se. «Vamos ver o grande cabelleireiro.», disse-me rindo. Continuei a alisar os cabellos, com muito cuidado, e dividi-os em duas porções eguaes, para compor as duas tranças. Não as fiz logo, nem assim depressa, como pódem suppôr os cabelleireiros de officio, mas devagar, devagarinho, saboreando pelo tacto aquelles fios grossos, que eram parte della. O trabalho era atrapalhado, ás vezes por desaso, outras de proposito, para desfazer o feito e refazel-o. Os dedos roçavam na nuca da pequena ou nas espaduas vestidas de chita, e a sensação era um deleite. Mas, emfim, os cabellos iam acabando, por mais que eu os quizesse interminaveis. Não pedi ao ceu que elles fossem tão longos como os da Aurora, porque não conhecia ainda esta divindade que os velhos poetas me apresentaram depois; mas, desejei penteal-os por todos os seculos dos seculos, tecer duas tranças que pudessem envolver o infinito por um numero innominavel de vezes. Se isto vos parecer emphatico, desgraçado leitor, é que nunca penteastes uma pequena, nunca puzestes as mãos adolescentes na joven cabeça de uma nympha... Uma nympha! Todo eu estou mythologico. Ainda ha pouco, falando dos seus olhos de ressaca, cheguei a escrever Thetis; risquei Thetis, risquemos nympha; digamos somente uma creatura amada, palavra que envolve todas as potencias christãs e pagãs. Emfim, acabei as duas tranças. Onde estava a fita para atar-lhes as pontas? Em cima da mesa, um triste pedaço de fita enxovalhada. Juntei as pontas das tranças, uni-as por um laço, retoquei a obra, alargando aqui, achatando alli, até que exclamei: --- Prompto! --- Estará bom? --- Veja no espelho. Em vez de ir ao espelho, que pensaes que fez Capitú? Não vos esqueçaes que estava sentada, de costas para mim. Capitú derreou a cabeça, a tal ponto que me foi preciso acudir com as mãos e amparal-a; o espaldar da cadeira era baixo. Inclinei-me depois sobre ella, rosto a rosto, mas trocados, os olhos de um na linha da bocca do outro. Pedi-lhe que levantasse a cabeça, podia ficar tonta, machucar o pescoço. Cheguei a dizer-lhe que estava feia; mas nem esta razão a moveu. --- Levanta, Capitú! Não quiz, não levantou a cabeça, e ficámos assim a olhar um para o outro, até que ella abrochou os labios, eu desci os meus, e... Grande foi a sensação do beijo; Capitú ergueu-se, rapida, eu recuei até á parede com uma especie de vertigem, sem fala, os olhos escuros. Quando elles me clarearam, vi que Capitú tinha os seus no chão. Não me atrevi a dizer nada; ainda que quizesse, faltava-me lingua. Preso, atordoado, não achava gesto nem impeto que me descolasse da parede e me atirasse a ella com mil palavras cabidas e mimosas... Não mofes dos meus quinze annos, leitor precoce. Com dezesete, Des Grieux (e mais era Des Grieux) não pensava ainda na differença dos sexos. # \chapt{XLIII}{Você tem medo?} De repente, cessando a reflexão, fitou em mim os olhos de ressaca, e perguntou-me se tinha medo. --- Medo? --- Sim, pergunto se você tem medo. --- Medo de que? --- Medo de apanhar, de ser preso, de brigar, de andar, de trabalhar... Não entendi. Se ella me tem dito simplesmente: «Vamos embora!» póde ser que eu obedecesse ou não; em todo caso, entenderia. Mas aquella pergunta assim, vaga e solta, não pude atinar o que era. --- Mas... não entendo. De apanhar? --- Sim. --- Apanhar de quem? Quem é que me dá pancada? Capitú fez um gesto de impaciencia, Os olhos de ressaca não se mexiam e pareciam crescer. Sem saber de mim, e, não querendo interrogal-a novamente, entrei a cogitar d'onde me viriam pancadas, e porque, e tambem porque é que seria preso, e quem é que me havia de prender. Valha-me Deus! vi de imaginação o aljube, uma casa escura e infecta. Tambem vi a presiganga, o quartel dos Barbonos e a Casa de Correcção. Todas essas bellas instituições sociaes me envolviam no seu mysterio, sem que os olhos de ressaca de Capitú deixassem de crescer para mim, a tal ponto que as fizeram esquecer de todo. O erro de Capitú foi não deixal-os crescer infinitamente, antes diminuir até ás dimensões normaes, e dar-lhes o movimento do costume. Capitú tornou ao que era, disse-me que estava brincando, não precisava affligir-me, e, com um gesto cheio de graça, bateu-me na cara sorrindo, e disse: --- Medroso! --- Eu? Mas... --- Não é nada, Bentinho. Pois quem é que ha de dar pancada ou prender você? Desculpe que eu hoje estou meia maluca; quero brincar, e... --- Não, Capitú; você não está brincando; nesta occasião, nenhum de nós tem vontade de brincar. --- Tem razão, foi só maluquice; até logo. --- Como até logo? --- Está-me voltando a dôr de cabeça; vou bolar uma rodella de limão nas fontes. Fez o que disse, e atou o lenço outra vez na testa. Em seguida, acompanhou-me ao quintal para se despedir de mim; mas, ainda ahi nos detivemos por alguns minutos, sentados sobre a borda do poço. Ventava, o ceu estava coberto. Capitú falou novamente da nossa separação, como de um facto certo e definitivo, por mais que eu, receioso disso mesmo, buscasse agora razões para animal-a. Capitú, quando não falava, riscava no chão, com um pedaço de taquara, narizes e perfis. Desde que se mettera a desenhar, era uma das suas diversões; tudo lhe servia de papel e lapis. Como me lembrassem os nossos nomes abertos por ella no muro, quiz fazer o mesmo no chão, e pedi-lhe a taquara. Não me ouviu ou não me attendeu. # \chapt{LIII}{A caminho!} Fui para o seminario. Poupa-me as outras despedidas. Minha mãe apertava-me ao peito. Prima Justina suspirava. Talvez chorasse mal ou nada. Ha pessoas a quem as lagrimas não acodem logo nem nunca; diz-se que padecem mais que as outras. Prima Justina disfarçava naturalmente os seus padecimentos intimos, emendando os descuidos de minha mãe, fazendo-me recommendações, dando ordens. Tio Cosme, quando eu lhe beijei a mão em despedida, disse-me rindo: --- Anda lá, rapaz, volta-me papa! José Dias, composto e grave, não dizia nada a principio; tinhamos falado na vespera, no quarto delle, onde fui ver se era ainda possivel evitar o seminario. Já não era, mas deu-me esperanças e principalmente animou-me muito. Antes de um anno estariamos a bordo. Como eu achasse muito breve, explicou-se. --- Dizem que não é bom tempo de atravessar o Atlantico, vou indagar; se não fôr, iremos em Março ou Abril. --- Posso estudar medicina aqui mesmo. José Dias correu os dedos pelos suspensorios com um gesto de impaciencia, apertou os beiços, até que formalmente rejeitou o alvitre. --- Não duvidaria approvar a ideia, disse elle, se na Escola de Medicina não ensinassem, exclusivamente, a podridão allopatha. A allopathia é o erro dos seculos, e vae morrer; é o assassinato, é a mentira, é a illusão. Se lhe disserem que póde apprender na Escola de Medicina aquella parte da sciencia commum a todos os systemas, é verdade; a allopathia é erro na therapeutica. Physiologia, anatomia, pathologia, não sao allopathicas nem homeopathicas, mas é melhor apprender logo tudo de uma vez, por livros e por lingua de homens cultores da verdade... Assim falára na vespera e no quarto. Agora não dizia nada, ou proferia algum aphorismo sobre a religião e a familia; lembro-me deste: «Dividil-o com Deus é ainda possuil-o.» Quando minha mãe me deu o ultimo beijo: «Quadro amantissimo!» suspirou elle. Era manhã de um lindo dia. Os moleques cochichavam; as escravas tomavam a benção: «Benção, nhô Bentinho! não se esqueça de sua Joanna! Sua Miquelina fica rezando por vosmecê!» Na rua José Dias insistiu nas esperanças: --- Aguente um anno; até lá tudo estará arranjado. # \chapt{LXIII}{Metades de um sonho.} Fiquei ancioso pelo sabbado. Até lá os sonhos perseguiam-me, ainda accordado, e não os digo aqui para não alongar esta parte do livro. Um só ponho, e no menor numero de palavras, ou antes porei dous, porque um nasceu de outro, a não ser que ambos formem duas metades de um só. Tudo isto é obscuro, dona leitora, mas a culpa é do vosso sexo, que perturbava assim a adolescencia de um pobre seminarista. Não fosse elle, e este livro seria talvez uma simples pratica parochial, se eu fosse padre, ou uma pastoral, se bispo, ou uma encyclica, se papa, como me recommendára tio Cosme: «Anda lá, meu rapaz, volta-me papa!» Ah! porque não cumpri esse desejo? Depois de Napoleão, tenente e imperador, todos os destinos estão neste seculo. Quanto ao sonho foi isto. Como estivesse a espiar os peraltas da visinhança, vi um destes que conversava com a minha amiga ao pé da janella. Corri ao logar, elle fugiu; avancei para Capitú, mas não estava só, tinha o pae ao pé de si, enxugando os olhos e mirando um triste bilhete de loteria. Não me parecendo isto claro, ia pedir a explicação, quando elle de si mesmo a deu; o peralta fôra levar-lhe a lista dos premios da loteria, e o bilhete saira branco. Tinha o numero 4004. Disse-me que esta symetria de algarismos era mysteriosa e bella, e provavelmente a roda andára mal; era impossivel que não devesse ter a sorte grande. Emquanto elle falava, Capitú dava-me com os olhos todas as sortes grandes e pequenas. A maior destas devia ser dada com a bocca. E aqui entra a segunda parte do sonho. Padua desappareceu, como as suas esperanças do bilhete. Capitú inclinou-se para fóra, eu relancei os olhos pela rua, estava deserta. Peguei-lhe nas mãos, resmunguei não sei que palavras, e accordei sósinho no dormitorio. O interesse do que acabas de ler não está na materia do sonho, mas nos esforços que fiz para ver se dormia novamente e pegava nelle outra vez. Nunca dos nuncas poderás saber a energia e obstinação que empreguei em fechar os olhos, apertal-os bem, esquecer tudo para dormir, mas não dormia. Esse mesmo trabalho fez-me perder o somno até á madrugada. Sobre a madrugada, consegui concilial-o, mas então nem peraltas, nem bilhetes de loteria, nem sortes grandes ou pequenas, --- nada dos nadas veiu ter commigo. Não sonhei mais aquella noite, e dei mal as licções daquelle dia. # \chapt{LXXIII}{O contra-regra.} O destino não é só dramaturgo, é tambem o seu proprio contra-regra, isto é, designa a entrada dos personagens em scena, dá-lhes as cartas e outros objectos, e executa dentro os signaes correspondentes ao dialogo, uma trovoada, um carro, um tiro. Quando eu era moço, representou-se ahi, em não sei que theatro, um drama que acabava pelo juizo final. O principal personagem era Ashaverus, que no ultimo quadro concluia um monologo por esta exclamação: «Ouço a trombeta do archanjo!» Não se ouviu trombeta nenhuma. Ashaverus, envergonhado, repetiu a palavra, agora mais alto, para advertir o contra-regra, mas ainda nada. Então caminhou para o fundo, disfarçamente tragico, mas effectivamente com o fim de falar ao bastidor, e dizer em voz surda: «O piston! o piston! o piston!» O publico ouviu esta palavra e desatou a rir, até que, quando a trombeta soou devéras, e Ashaverus bradou pela terceira vez que era a do archanjo, um gaiato da platéa corrigiu cá debaixo: «Não, senhor, é o piston do archanjo!» Assim se explicam a minha estada debaixo da janella de Capitú e a passagem de um cavalleiro, um \emph{dandy}, como então diziamos. Montava um bello cavallo alazão, firme na sella, redea na mão esquerda, a direita á cinta, botas de verniz, figura e postura esbeltas: a cara não me era desconhecida. Tinham passado outros, e ainda outros viriam atraz; todos iam ás suas namoradas. Era uso do tempo namorar a cavallo. Relê Alencar: «Porque um estudante (dizia um dos seus personagens de theatro de 1858) não póde estar sem estas duas cousas, um cavallo e uma namorada.» Relê Alvares de Azevedo. Uma das suas poesias é destinada a contar (1851) que residia em Calumby, e, para ver a namorada no Cattete, alugára um cavallo por trez mil reis... Trez mil reis! tudo se perde na noite dos tempos! Ora, o \emph{dandy} do cavallo baio não passou como os outros; era a trombeta do juizo final e soou a tempo; assim faz o Destino, que é o seu proprio contra-regra. O cavalleiro não se contentou de ir andando, mas voltou a cabeça para o nosso lado, o lado de Capitú, e olhou para Capitú, e Capitú para elle; o cavallo andava, a cabeça do homem deixava-se ir voltando para traz. Tal foi o segundo dente de ciume que me mordeu. A rigor, era natural admirar as bellas figuras; mas aquelle sujeito costumava passar alli, ás tardes; morava no antigo Campo da Acclamação, e depois... e depois... Vão lá raciocinar com um coração de braza, como era o meu! Nem disse nada a Capitú; saí da rua á pressa, enfiei pelo meu corredor, e, quando dei por mim, estava na sala de visitas. # \chapt{LXXIV}{A presilha.} Na sala de visitas, tio Cosme e José Dias conversavam, um sentado, outro andando e parando. A vista de José Dias lembrou-me o que elle me dissera no seminario: «Aquillo emquanto não pegar algum peralta da visinhança que case com ella...» Era certamente allusão ao cavalleiro. Tal recordação aggravou a impressão que eu trazia da rua; mas não seria essa palavra, inconscientemente guardada, que me dispoz a crer na malicia dos seus olhares? A vontade que tive foi pegar em José Dias pela gola, leval-o ao corredor e perguntar-lhe se falára de verdade ou por hypothese; mas José Dias, que parára ao ver-me entrar, continuou a andar e a falar. Eu, impaciente, queria ir á casa ao pé, imaginava que Capitú saisse da janella assustada e não tardasse a apparecer, para indagar e explicar... E os dous falavam, até que tio Cosme ergueu-se para ir ver a doente, e José Dias veiu ter commigo, ao vão da outra janella. Ha um instante tinha eu desejo de lhe perguntar o que havia entre Capitú e os peraltas do bairro; agora, imaginando que vinha justamente dizer-m'o, fiquei com medo de ouvil-o. Quiz tapar-lhe a bocca. José Dias viu no meu rosto algum signal differente da expressão habitual, e perguntou-me com interesse: --- Que é, Bentinho? Para não fital-o, deixei cair os olhos. Os olhos, caindo, viram que uma das presilhas das calças do aggregado estava desabotoada, e, como elle insistisse em saber o que é que eu tinha, respondi apontando com o dedo: --- Olhe a presilha, abotoe a presidia. José Dias inclinou-se, eu saí correndo.