Folder: webmail-ic-2008-11-18/Misc From stolfi@ic.unicamp.br Mon Apr 23 22:04:14 2007 X-Original-To: stolfi@ic.unicamp.br Delivered-To: stolfi@ic.unicamp.br Date: Mon, 23 Apr 2007 22:03:03 -0300 Message-Id: <200704240103.l3O1331k022517@dumont.ic.unicamp.br> From: Jorge Stolfi To: marcoantonio@imagelink.com.br Subject: [IC/Ling] Indios Piraha Prezado Prof. Marco Antonio, Sou professor de computação aqui na UNICAMP, mas tenho um certo interesse pessoal e profissional em linguística, em particular na língua dos índios pirahã. Há alguns anos comprei (em liquidação de estoque) uma cópia da tese de Daniel Everett sobre a língua pirahã, publicada pela Editora da Unicamp em mas agora esgotada. Por um caminho tortuoso, acabei ficando interessado no assunto (aliás, antes mesmo dos pirahã ficarem famosos devido ao artigo na Nature sobre a hipótese de Sapir-Whorf). Esse interesse me levou, por exemplo, a escrever boa parte do artigo sobre essa língua na Wikipedia (http://en.wikipedia.org/Piraha_language) --- apesar de meu domínio da língua ser exatamente zero. Li sua descrição do povo pirahã no site http://www.socioambiental.org/pib/epienglish/piraha/. Gostei muito do site, e fiquei impressionado com a qualidade do conteúdo. Na verdade, é a melhor fonte que conheço sobre esse grupo indígena. Meus parabéns! Talvez lhe interesse saber que há algumas fotos dos pirahã num relatório de uma expedição do Rondon, impresso como livro (2 volumes) por volta de 1940 pelo Governo. Infelizmente, pelo que me lembro, não há quase nenhuma informação útil sobre esse grupo no livro, e inclusive eles são descritos como membros da família Tupi-Guarani. (Imagino que o engano foi devido ao uso do Nheengatu como língua franca.) O exemplar que eu vi pertence ao Prof. Anselmo Montenegro da UFF, ; se você está interessado, ele pode lhe dar os dados bibliográficos. Mas a razão principal para lhe escrever é que eu tenho sérias dúvidas quanto à qualidade do material disponível sobre a *língua* dos pirahã. Pelo que me consta, existem apenas duas fontes substanciais sobre a gramática: (1) a primeira metade da tese do Everett, que é uma descrição geral da gramática do pirahã. Essa tese foi baseada em material colhido pelo autor "de janeiro a março de 1979 e de abril a dezembro de 1980, quando ele era missionário do SIL. Outros estudos foram feitos em várias ocasiões (por um total de quatro meses) com a ajuda de informantes pirahã fora da aldeia." Segundo suas proprias declarações, na época em que o trabalho foi escrito, ele tinha tido "ao todo [...] aproximadamente quatoze meses de contato intensivo com os pirahã." (2) uma descrição da estrutura dos verbos pirahã, publicada em 1988 por Steven N. Sheldon (também missionário do SIL), mas possivelmente baseada em dados colhidos vários anos antes. As publicações posteriores de Everett sobre o pirahã parecem ser todas sobre temas bem específicos, como fonologia/fonética ou a morfologia de certos sufixos. Há umas poucas publicações de outros autores, mas elas geralmente usam material fornecido pelo Everett, ou limitam-se a aspectos não gramaticais, como fonética. O problema é que a tese do Everett é um tanto confusa, e não consegui nem determinar se sua gramática verbal é compatível com a do Sheldon. Há algumas discrepâncias óbvias: por exemplo, o Sheldon afirma que a fonética do pirahã usa três tons (alturas) de vogais, enquanto que Everett só reconhece duas. Não sei dizer se essa diferença é significativa (pode ser alofonia tonal ou algo assim). Parece haver também discrepâncias na identificação de sufixos verbais. O que me incomoda mesmo é o fato de que o Everett parece ser o único não-pirahã que consegue entender a fala dos pirahã; de modo que muitas de suas afirmações sobre a mesma não têm confirmação independente, e só podem ser aceitas na base da fé em sua autoridade. Sua orientadora de doutorado, a Profa. Charlotte Galves do IEL-UNICAMP, é especialista em português e línguas latinas, e não trabalha com línguas indígenas. Ela me disse que só ajudou o Everett a colocar a gramática pirahã no contexto das teorias de Chomski; mas não pode dizer nada sobre a gramática em si, pois essa parte foi trabalho do Everett sozinho. Minha incerteza se aplica inclusive à própria afirmação do Everett de que ele domina o idioma. Acontece que vários episódios relatados em seus próprios artigos sugerem fortemente que seu domínio da língua pirahã é bastante limitado. Na verdade, essa seria uma explicação bastante adequada para muitas das supostas peculiaridades do pirahã, e inclusive dos resultados do experimento relatado na Nature! Para tentar clarear essas dúvidas, estou tentando agora obter mais informações independentes sobre as estadias do Everett e dos outros missionários do SIL junto aos Pirahã, incluindo duração e natureza dos contatos. Por exemplo: eles moravam junto aos pirahã, ou moravam junto aos "brancos" e apenas visitavam a região periodicamente? Você escreveu no site que dois casais de missionários do SIL viveram com a tribo por vários anos. Na sua tese, Everett agradece a ajuda de "Arlo e Vi Heinrichs, Steve e Linda Sheldon"; são esses os dois casais? O site de bibliografia do SIL tem as seguintes publicações deles: Heinrichs, Arlo. 1964. "Os fonemas do Mura-Pirahã." Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi, Nova série, Antropologica 21: 1-9. Heinrichs, Arlo. 1967. "Notas preliminares sôbre núcleos oracionais contrastivos em mura-pirahã." In Atos do Simpósio sôbre a Biota Amazônica, vol. 2 , 127-31. Sheldon, Steven N. 1974. "Some morphophonemic and tone perturbation rules in Mura-Pirahã." International Journal of American Linguistics 40: 279-82. Sheldon, Steven N. 1988. "Os sufixos verbais múra-piraha." Série Lingüística 9(2): 147-75. Desses, só tenho o artigo de Sheldon de 1988, disponível no prórprio site do SIL. (Consta-me que ele é hoje Diretor Executivo da Administração Internacional do SIL, e não faz mais linguística.) Agradeço qualquer ajuda, --stolfi Jorge Stolfi Diretor Instituto de Computação, UNICAMP