Aula 9: Redes Bayesianas e Modelos Gráficos Probabilísticos (PGMs) para Mineração de Itens Frequentes

Aprendizado Não Supervisionado

Autor

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

Data de Publicação

13 de outubro de 2026

Slides Lista de aulas

1 Revisão e Introdução

1.1 Revisão Cuidadosa: O Que a Parte 2 Deixou Pronto

Nas três aulas anteriores, exploramos a Parte 2 do curso, dedicada à redução de dimensionalidade e ao aprendizado de representações em espaços vetoriais contínuos:

  1. Aula 6 (O Mundo Linear): Estudamos a PCA como a projeção que maximiza a variância retida ou minimiza o erro quadrático de reconstrução, e formulamos a Probabilistic PCA (PPCA) como um modelo generativo gaussiano de posto reduzido \(\mathbf{x} = \mathbf{W}\mathbf{z} + \boldsymbol\mu + \boldsymbol\epsilon\).
  2. Aula 7 (O Mundo Não Linear): Estendemos a PPCA para variedades curvas com Autoencoders Profundos e Variational Autoencoders (VAEs), utilizando a inferência amortizada e a otimização estocástica do ELBO via truque de reparametrização.
  3. Aula 8 (Visualização e Vizinhanças): Descobrimos que, para visualização humana estrita em 2D, a métrica global de reconstrução colapsa devido ao crowding problem (gargalo de volume \(r^D\) vs. \(r^2\)). Analisamos o t-SNE, que troca distâncias geométricas por probabilidades de vizinhança calibradas pela Perplexidade e substitui a Gaussiana pela cauda pesada de Student-\(t\) no plano.

Em todas essas abordagens, lidamos com variáveis contínuas em espaços euclidianos \(\mathbb{R}^D\), onde distâncias, normas e produtos internos faziam sentido geométrico.

Agora, inauguramos a Parte 3: Descoberta de Informação e Estruturas em Grande Escala. Em inúmeros cenários reais — como logs de comércio eletrônico, registros hospitalares, redes de co-ocorrência de termos e dados genômicos discretos —, os dados chegam como vetores binários esparsos \(\mathbf{x} \in \{0, 1\}^D\) ou variáveis categóricas puras. Nesses domínios, calcular distâncias euclidianas perde o sentido físico. O que realmente desejamos descobrir são estruturas de dependência: quais eventos condicionam outros e como distinguir dependências causais verdadeiras de correlações espúrias.

1.2 Ideia Central: Da Co-ocorrência à Topologia de Dependência

A ideia central desta aula estrutura-se sobre uma distinção epistemológica fundamental: co-ocorrência frequente não implica associação direta, e associação simétrica não implica direcionalidade.

Na prática de mineração de dados (data mining), o ponto de partida habitual é a análise de cestas de compras (market basket analysis), formulada por Agrawal et al. (1993) e sistematizada no ESL (Cap. 14). Utilizam-se métricas empíricas como Suporte (\(P(A \cap B)\)), Confiança (\(P(B \mid A)\)) e Lift (\(\frac{P(A \cap B)}{P(A)P(B)}\)) para identificar itens frequentemente comprados juntos. O algoritmo Apriori explora a propriedade de antimonotonicidade do suporte para podar o espaço combinatorial de \(2^D\) possíveis subconjuntos.

Entretanto, abordagens puramente baseadas em regras de associação possuem duas deficiências teóricas graves: 1. Simetria Ingênua: O Lift é estritamente comutativo (\(\text{Lift}(A \Rightarrow B) = \text{Lift}(B \Rightarrow A)\)). Ele mede afastamento da independência marginal, mas é incapaz de indicar direcionalidade. 2. Cegueira a Confundidores Latentes: Duas variáveis \(A\) e \(B\) podem apresentar um Lift expressivamente maior que \(1\) puramente devido a uma causa comum não observada \(C\) (\(A \leftarrow C \to B\)). Ao estratificarmos por \(C\), a dependência dissipa-se completamente (\(A \perp\!\!\!\perp B \mid C\)), revelando que a associação empírica era espúria (Paradoxo de Simpson).

Para superar essas deficiências de forma estatisticamente rigorosa, recorremos aos Modelos Gráficos Probabilísticos Direcionados (Redes Bayesianas) (Bishop, 2006, Cap. 8; Pearl, 1988). Em uma Rede Bayesiana, a topologia de um Grafo Acíclico Direcionado (DAG) codifica diretamente a fatoração da probabilidade conjunta: \[p(x_1, \dots, x_K) = \prod_{k=1}^K p(x_k \mid \text{pa}_k)\] Através do critério de \(d\)-separação, podemos inspecionar graficamente se dois conjuntos de nós são condicionalmente independentes dado um terceiro, desvendando as três estruturas canônicas do fluxo de informação: cadeias, bifurcações e colisores (explaining away).

1.3 Roteiro da Aula

Para construir essa teoria do empírico ao formal, estruturaremos a aula em cinco blocos conceituais:

  1. Como formalizar matematicamente a mineração de regras de associação e a poda do Apriori? Definir suporte, confiança e lift, provando a propriedade de antimonotonicidade em conjuntos de dados transacionais.
  2. Por que o Lift falha como métrica de descoberta estrutural? Demonstrar analiticamente a simetria do Lift e o surgimento de correlações espúrias devido a causas comuns latentes (Paradoxo de Simpson em cestas de compras).
  3. Como as Redes Bayesianas fatoram a distribuição conjunta e geram economia paramétrica exponencial? Traduzir a regra da cadeia da probabilidade em grafos acíclicos direcionados (DAGs) condicionados aos nós pais.
  4. Quais são as três geometrias canônicas de dependência condicional? Analisar formalmente a cadeia (head-to-tail), a bifurcação (tail-to-tail) e o colisor (head-to-head), derivando analiticamente o fenômeno de explaining away.
  5. Como funciona o critério geral de \(d\)-separação e quais são os limites da inferência observacional? Aplicar o bloqueio de caminhos para distribuições gerais e provar o conceito de classes de equivalência de Markov (I-equivalência).

1.4 Problema Motivador: A Regra Ilusória do Café e da Torradeira

Considere uma base transacional de varejo com \(N=10.000\) compras. Analisando as vendas de dois produtos específicos — Café Gourmet (\(A\)) e Torradeira Elétrica (\(B\)) —, um cientista de dados calcula as seguintes métricas empíricas: - Suporte marginal do café: \(P(A=1) \approx 0{,}24\); - Suporte marginal da torradeira: \(P(B=1) \approx 0{,}18\); - Suporte conjunto: \(P(A=1, B=1) \approx 0{,}116\).

Ao calcular o Lift da regra \(\{Caf\acute{e}\} \Rightarrow \{Torradeira\}\), ele encontra: \[\text{Lift} = \frac{P(A=1, B=1)}{P(A=1)P(B=1)} \approx \frac{0{,}116}{(0{,}24)(0{,}18)} \approx 2{,}69\]

Um Lift de \(2{,}69\) sugere aos tomadores de decisão que comprar café gourmet quase triplica a propensão de comprar uma torradeira. A equipe de marketing sugere colocar torradeiras na prateleira ao lado dos grãos de café.

Porém, ao inspecionarmos uma terceira variável de contexto — Perfil do Cliente (\(C\)), onde \(C=1\) indica clientes de alta renda que compram eletrodomésticos premium e grãos especiais, e \(C=0\) representa o público geral —, revelamos a seguinte realidade: - Dentro do grupo \(C=1\): \(\text{Lift}(A \Rightarrow B \mid C=1) \approx 1{,}00\); - Dentro do grupo \(C=0\): \(\text{Lift}(A \Rightarrow B \mid C=0) \approx 1{,}00\).

Condicionalmente à renda do cliente, a compra de café e a compra de torradeira são rigorosamente independentes! A suposta atração de \(2{,}69\) é uma correlação inteiramente espúria causada pela variável de confusão \(C\).

1.5 Pausa Ativa 1: Regras de Associação e Antimonotonicidade

DicaO Superconjunto e o Suporte

Se um conjunto de 3 produtos \(\{Caf\acute{e}, Leite, P\tilde{a}o\}\) possui suporte medido de \(15\%\) em uma base de 1 milhão de transações, o que podemos deduzir com certeza matemática absoluta sobre o suporte do par \(\{Caf\acute{e}, P\tilde{a}o\}\) e do quarteto \(\{Caf\acute{e}, Leite, P\tilde{a}o, Manteiga\}\)?

Dica para conduzir: Pense na probabilidade da interseção de conjuntos de eventos aleatórios. O que acontece com a probabilidade quando acrescentamos restrições adicionais?

DicaV ou F: Métricas de Regras de Associação

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ Se o itemset \(\{A, B\}\) tem suporte de \(0{,}05\), é matematicamente impossível que o item isolado \(\{A\}\) tenha suporte inferior a \(0{,}05\).
  • □ Uma regra com confiança de \(100\%\) (\(c(A \Rightarrow B) = 1{,}0\)) comprova que a compra de \(A\) causou a compra de \(B\).
  • □ O espaço de todos os possíveis subconjuntos de itens em um catálogo de \(D\) produtos escala linearmente com \(D\).
  • □ A métrica de suporte expressa a probabilidade conjunta empírica \(P(A \cap B)\), enquanto a confiança expressa a probabilidade condicional \(P(B \mid A)\).

2 Bloco 1: Mineração de Itens Frequentes — Suporte, Confiança e Lift

2.1 Formalização de Itens e Transações

Seguindo a formulação de Agrawal et al. (1993) e ESL (§14.2), consideramos um universo de \(D\) itens discretos \(\mathcal{I} = \{i_1, i_2, \dots, i_D\}\). Uma transação de compras \(t\) é um subconjunto de itens \(t \subseteq \mathcal{I}\), convenientemente representada como um vetor binário: \[\mathbf{x} = (x_1, \dots, x_D)^T \in \{0, 1\}^D, \quad \text{onde } x_j = \mathbb{I}(i_j \in t)\]

Dispomos de uma base não supervisionada com \(N\) transações observadas: \[\mathcal{D} = \{\mathbf{x}_1, \mathbf{x}_2, \dots, \mathbf{x}_N\}\]

NotaDefinição 1 (Itemset e Suporte; ESL §14.2.1)

Um itemset \(I \subseteq \mathcal{I}\) é qualquer subconjunto de itens. O Suporte de \(I\), denotado por \(s(I)\), é a frequência relativa de transações na base \(\mathcal{D}\) que contêm todos os itens de \(I\): \[s(I) = \frac{1}{N}\sum_{n=1}^N \prod_{j \in I} x_{nj} = P\left(\bigwedge_{j \in I} (x_j = 1)\right)\] Um itemset é dito frequente se seu suporte satisfaz \(s(I) \ge s_{\min}\), onde \(s_{\min} \in (0, 1]\) é um limiar de suporte fixado pelo analista.

O cálculo exato de suporte para todos os possíveis itemsets candidatos envolveria testar \(2^D - 1\) combinações. Para \(D=50\) itens, \(2^{50} \approx 1{,}12 \times 10^{15}\), tornando impossível a busca exaustiva. A viabilidade computacional decorre de uma propriedade teórica fundamental.

NotaTeorema 1 (Propriedade de Antimonotonicidade do Suporte; Agrawal et al., 1993)

Sejam \(A\) e \(B\) dois itemsets. Se \(A \subseteq B\), então: \[s(B) \le s(A)\] Demonstração: Seja \(\mathcal{T}_I = \{n \in \{1, \dots, N\} \mid \forall j \in I, x_{nj} = 1\}\). Se \(A \subseteq B\), então qualquer transação que satisfaça todos os itens de \(B\) satisfaz trivialmente todos os itens de \(A\), logo \(\mathcal{T}_B \subseteq \mathcal{T}_A\). Pela monotonicidade da cardinalidade de conjuntos finitos, \(|\mathcal{T}_B| \le |\mathcal{T}_A|\), de onde segue que \(\frac{|\mathcal{T}_B|}{N} \le \frac{|\mathcal{T}_A|}{N}\), ou seja, \(s(B) \le s(A)\). \(\blacksquare\)

A contrapositiva do Teorema 1 estabelece a regra de poda do algoritmo Apriori: \[\text{Se } s(A) < s_{\min}, \quad \text{então } \forall B \supseteq A, \quad s(B) < s_{\min}\] Se qualquer subconjunto for infrequente, nenhum superconjunto precisa ser sequer gerado ou computado.

2.2 Regras de Associação: Confiança e Lift

A partir de um itemset frequente \(I\), constroem-se regras de associação da forma: \[A \Rightarrow B, \quad \text{onde } A, B \subset I, \quad A \cap B = \emptyset, \quad A \cup B = I\] Onde \(A\) é denominado antecedente e \(B\) é o consequente.

NotaDefinição 2 (Confiança e Lift; ESL §14.2.2)
  1. A Confiança de uma regra \(A \Rightarrow B\) mede a probabilidade condicional empírica de observar \(B\) dado que \(A\) foi observado: \[c(A \Rightarrow B) = \frac{s(A \cup B)}{s(A)} = \frac{P(A \cap B)}{P(A)} = P(B \mid A)\]
  2. O Lift mede a razão entre a probabilidade conjunta observada e a probabilidade esperada caso \(A\) e \(B\) fossem estatisticamente independentes: \[\text{Lift}(A \Rightarrow B) = \frac{P(A \cap B)}{P(A)P(B)} = \frac{P(B \mid A)}{P(B)}\]

Interpretando o Lift: - \(\text{Lift}(A \Rightarrow B) = 1\): \(A\) e \(B\) são estatisticamente independentes (\(P(B \mid A) = P(B)\)); - \(\text{Lift}(A \Rightarrow B) > 1\): \(A\) e \(B\) co-ocorrem com frequência superior à independência (associação positiva aparente); - \(\text{Lift}(A \Rightarrow B) < 1\): \(A\) e \(B\) co-ocorrem menos do que o esperado (associação negativa ou substituição).

Contudo, repare na seguinte propriedade matemática imediata: \[\text{Lift}(A \Rightarrow B) = \frac{P(A \cap B)}{P(A)P(B)} = \frac{P(B \cap A)}{P(B)P(A)} = \text{Lift}(B \Rightarrow A)\] O Lift é estritamente comutativo. Ele trata \(A \Rightarrow B\) e \(B \Rightarrow A\) com o mesmíssimo número. Não há nenhum mecanismo dentro do cálculo do Lift capaz de dizer se \(A\) atrai \(B\), se \(B\) atrai \(A\), ou se ambos decorrem de uma causa oculta.

2.3 Pausa Ativa 2: A Simetria do Lift e o Confounding

DicaO Paradoxo da Regra Simétrica

Uma drogaria descobre que a regra \(\{Fraldas\} \Rightarrow \{Cerveja\}\) possui \(\text{Lift} = 2{,}5\), e a regra inversa \(\{Cerveja\} \Rightarrow \{Fraldas\}\) possui exatamente o mesmo \(\text{Lift} = 2{,}5\). O que a igualdade estrita desses valores revela sobre a capacidade do Lift de indicar direcionalidade causal? Se a variável oculta \(\{Sexta\text{-}feira\ \grave{a}\ tarde\}\) duplicar as vendas de ambos os itens de forma independente, o que acontece com a dependência real entre eles?

DicaV ou F: Propriedades do Lift e Confounding

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ Um valor de \(\text{Lift}(A \Rightarrow B) = 1{,}0\) indica que a ocorrência de \(A\) e a ocorrência de \(B\) são estatisticamente independentes na base de dados.
  • □ Se \(\text{Lift}(A \Rightarrow B) = 3{,}0\), então necessariamente a confiança da regra \(c(A \Rightarrow B)\) é o triplo da confiança inversa \(c(B \Rightarrow A)\).
  • □ O paradoxo de Simpson ocorre quando uma associação observada em uma população agregada se inverte ou desaparece ao estratificarmos por uma variável confundidora.
  • □ Uma regra de associação com alto Lift e alta Confiança é imune a variáveis de confusão latentes.

3 Bloco 2: Redes Bayesianas e a Fatoração da Distribuição Conjunta

3.1 Grafos Acíclicos Direcionados (DAGs) como Modelos Probabilísticos

Para ir além de tabelas empíricas de regras de associação e modelar a estrutura geradora dos dados, adotamos o paradigma dos Modelos Gráficos Probabilísticos (PGMs) (Bishop, 2006, Cap. 8).

Considere um vetor com \(K\) variáveis aleatórias discretas \(\mathbf{x} = (x_1, x_2, \dots, x_K)\). Pela regra do produto da teoria da probabilidade, qualquer distribuição conjunta pode ser expandida sem perda de generalidade como: \[p(x_1, \dots, x_K) = p(x_K \mid x_1, \dots, x_{K-1}) \cdots p(x_2 \mid x_1) p(x_1) = \prod_{k=1}^K p(x_k \mid x_1, \dots, x_{k-1})\] Essa fatoração é sempre válida, mas é maximalmente complexa: para \(K\) variáveis binárias, especificar essa distribuição sem simplificações exige \(2^K - 1\) números reais livres. Para \(K=30\), são mais de 1 bilhão de parâmetros.

A intuição de uma Rede Bayesiana (ou grafo acíclico direcionado) é que, para cada variável \(x_k\), o condicionamento a todo o passado histórico \(x_1, \dots, x_{k-1}\) pode ser reduzido a um subconjunto restrito denominado conjunto de pais de \(x_k\), denotado por \(\text{pa}_k\):

NotaDefinição 3 (Rede Bayesiana e Fatoração Conjunta; PRML §8.1.1)

Dado um Grafo Acíclico Direcionado (DAG) \(\mathcal{G} = (\mathcal{V}, \mathcal{E})\) cujos vértices \(\mathcal{V} = \{1, \dots, K\}\) correspondem às variáveis aleatórias, a distribuição conjunta \(p(\mathbf{x})\) fatora de acordo com o grafo se: \[p(x_1, \dots, x_K) = \prod_{k=1}^K p(x_k \mid \text{pa}_k)\] onde \(\text{pa}_k = \{j \in \mathcal{V} \mid (j \to k) \in \mathcal{E}\}\) representa o conjunto de nós que possuem arestas direcionadas apontando diretamente para o nó \(k\).

A economia paramétrica é drástica: se cada nó possui no máximo \(m \ll K\) pais binários, a tabela de probabilidades condicionais (CPT) de cada nó exige no máximo \(2^m\) parâmetros. O total de parâmetros do modelo passa a ser de ordem \(O(K \cdot 2^m)\), que escala linearmente com o número de variáveis \(K\), em vez de exponencialmente.

3.2 Pausa Ativa 3: Redes Bayesianas e Fatoração

DicaO Custo do Catálogo Completo

Considere um conjunto de \(K=10\) produtos binários em um supermercado. Quantos números livres seriam necessários para especificar a distribuição conjunta completa \(p(x_1, \dots, x_{10})\) sem nenhuma hipótese de independência? Se organizarmos esses itens em uma Rede Bayesiana onde cada produto tem no máximo 2 pais, quantos parâmetros tornam-se suficientes?

DicaV ou F: Redes Bayesianas e Grafos

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ Pela regra da cadeia da probabilidade, qualquer distribuição conjunta fatora como \(p(x_1, \dots, x_K) = \prod_{k=1}^K p(x_k \mid x_1, \dots, x_{k-1})\).
  • □ A ausência de uma aresta direcionada entre dois nós em uma Rede Bayesiana é apenas uma escolha visual e não expressa nenhuma restrição estatística.
  • □ Um Grafo Acíclico Direcionado (DAG) pode conter ciclos fechados desde que a probabilidade condicional seja normalizada.
  • □ Para um nó binário com \(m\) pais binários, o número de parâmetros independentes em sua tabela condicional (CPT) é \(2^m\).

4 Bloco 3: Independência Condicional e as Três Estruturas Canônicas

4.1 As Três Geometrias Fundamentais do Fluxo de Informação

A propriedade mais profunda dos Modelos Gráficos Probabilísticos é a capacidade de ler independências condicionais diretamente a partir do desenho do grafo (PRML §8.2).

Dizemos que \(A\) é condicionalmente independente de \(B\) dado \(C\), denotado por \(A \perp\!\!\!\perp B \mid C\), se: \[p(A, B \mid C) = p(A \mid C) p(B \mid C) \quad \iff \quad p(A \mid B, C) = p(A \mid C)\]

Em grafos direcionados com 3 variáveis, existem exatamente três estruturas elementares, que governam todo o fluxo de informação probabilística:

4.2 1. A Cadeia (Head-to-Tail) e a Causalidade Indireta

Considere o grafo \(A \to B \to C\). Pela fatoração de DAGs: \[p(A, B, C) = p(A) p(B \mid A) p(C \mid B)\]

Marginalmente, \(A\) e \(C\) são dependentes: \[p(A, C) = \sum_B p(A, B, C) = p(A) \sum_B p(B \mid A) p(C \mid B) \neq p(A) p(C)\]

Contudo, ao condicionarmos no nó intermediário \(B\): \[p(A, C \mid B) = \frac{p(A, B, C)}{p(B)} = \frac{p(A) p(B \mid A) p(C \mid B)}{p(B)} = \frac{p(A, B) p(C \mid B)}{p(B)} = p(A \mid B) p(C \mid B)\] Portanto: \[A \perp\!\!\!\perp C \mid B\] O nó intermediário \(B\) bloqueia o fluxo de informação quando é condicionado.

4.3 2. A Bifurcação (Tail-to-Tail) e a Causa Comum

Considere o grafo \(A \leftarrow B \to C\). Pela fatoração: \[p(A, B, C) = p(B) p(A \mid B) p(C \mid B)\]

Marginalmente, \(A\) e \(C\) são dependentes pela causa comum \(B\): \[p(A, C) = \sum_B p(B) p(A \mid B) p(C \mid B) \neq p(A) p(C)\] Esta é exatamente a estrutura do nosso Problema Motivador: Café (\(A\)) e Torradeira (\(C\)) compartilham a causa comum Renda (\(B\)), gerando o Lift espúrio de \(2{,}69\).

Ao condicionarmos em \(B\): \[p(A, C \mid B) = \frac{p(A, B, C)}{p(B)} = \frac{p(B) p(A \mid B) p(C \mid B)}{p(B)} = p(A \mid B) p(C \mid B)\] Portanto: \[A \perp\!\!\!\perp C \mid B\] O nó de causa comum \(B\) bloqueia o caminho tail-to-tail quando é condicionado.

4.4 3. O Colisor (Head-to-Head) e o Fenômeno de Explaining Away

Considere agora o grafo \(A \to C \leftarrow B\), onde as setas colidem no nó central \(C\). Pela fatoração: \[p(A, B, C) = p(A) p(B) p(C \mid A, B)\]

Integrando sobre \(C\): \[p(A, B) = \sum_C p(A) p(B) p(C \mid A, B) = p(A) p(B) \sum_C p(C \mid A, B) = p(A) p(B)\] As variáveis \(A\) e \(B\) são marginalmente independentes (\(A \perp\!\!\!\perp B\)).

Contudo, ao condicionarmos no efeito comum \(C\): \[p(A, B \mid C) = \frac{p(A, B, C)}{p(C)} = \frac{p(A) p(B) p(C \mid A, B)}{p(C)} \neq p(A \mid C) p(B \mid C)\] Quando condicionamos no colisor \(C\), o caminho abre-se e \(A\) e \(B\) tornam-se dependentes!

Esse comportamento contra-intuitivo é o fenômeno de explaining away (Pearl, 1988): quando duas causas independentes disputam a explicação de um efeito comum observado, saber que uma delas ocorreu reduz a necessidade probabilística da outra.

4.5 Pausa Ativa 4: As Três Estruturas Canônicas e o Colisor

DicaO Regador e a Chuva

Considere as variáveis \(A\) (Choveu), \(B\) (Regador automático ligou) e \(C\) (Grama está molhada). A física dita que \(A\) e \(B\) ocorrem de forma independente (\(A \perp\!\!\!\perp B\)). Se você olhar pela janela e vir a grama molhada (\(C=1\)), e logo depois souber que o regador ligou com certeza (\(B=1\)), o que acontece com a probabilidade de que tenha chovido (\(A=1\))?

DicaV ou F: As Geometrias Canônicas

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ Na cadeia \(A \to B \to C\), as variáveis \(A\) e \(C\) tornam-se condicionalmente independentes dado \(B\) (\(A \perp\!\!\!\perp C \mid B\)).
  • □ Na bifurcação \(A \leftarrow B \to C\), condicionar em \(B\) induz dependência espúria entre \(A\) e \(C\).
  • □ No colisor \(A \to C \leftarrow B\), \(A\) e \(B\) são marginalmente independentes sem condicionamento (\(A \perp\!\!\!\perp B\)).
  • □ Se \(C\) é um colisor no caminho entre \(A\) e \(B\), condicionar em um descendente de \(C\) mantém o caminho bloqueado.

5 Bloco 4: d-Separação Geral, Cobertura de Markov e Equivalência

5.1 O Critério Geral de d-Separação

Para analisar grafos com dezenas de nós, generalizamos as regras canônicas através do critério de \(d\)-separação (directed separation), formulado por Judea Pearl (1988) e detalhado em PRML (§8.2.2).

NotaTeorema 2 (Critério de \(d\)-Separação; Pearl, 1988; PRML §8.2.2)

Considere um grafo acíclico direcionado \(\mathcal{G}\) e três conjuntos disjuntos de nós \(A\), \(B\) e \(C\). Dizemos que um caminho não direcionado \(p\) entre um nó de \(A\) e um nó de \(B\) está bloqueado pelo conjunto condicionado \(C\) se: 1. O caminho contém um nó \(m\) que é head-to-tail (\(\to m \to\) ou \(\leftarrow m \leftarrow\)) ou tail-to-tail (\(\leftarrow m \to\)), e \(m \in C\); OU 2. O caminho contém um nó \(m\) que é head-to-head (\(\to m \leftarrow\), colisor), e nem \(m\) nem qualquer descendente de \(m\) pertence a \(C\).

Se todos os caminhos possíveis entre os nós de \(A\) e os nós de \(B\) estiverem bloqueados por \(C\), dizemos que \(A\) é \(d\)-separado de \(B\) por \(C\) no grafo \(\mathcal{G}\), o que implica rigorosamente: \[A \perp\!\!\!\perp B \mid C\] para qualquer distribuição de probabilidade que fature de acordo com \(\mathcal{G}\).

Um conceito correlato essencial em inferência e amostragem é a Cobertura de Markov (Markov Blanket):

NotaDefinição 4 (Cobertura de Markov; PRML §8.3.2)

A Cobertura de Markov de um nó \(X_i\), denotada por \(\text{MB}(X_i)\), é o menor conjunto de nós que torna \(X_i\) condicionalmente independente de todas as outras variáveis do grafo: \[X_i \perp\!\!\!\perp (\mathcal{V} \setminus \{X_i \cup \text{MB}(X_i)\}) \mid \text{MB}(X_i)\] Em uma Rede Bayesiana, \(\text{MB}(X_i)\) é formada por: \[\text{MB}(X_i) = \text{pa}(X_i) \cup \text{ch}(X_i) \cup \text{co-pais}(X_i)\] onde \(\text{co-pais}(X_i)\) são os outros pais dos filhos de \(X_i\). A inclusão dos co-pais é estritamente obrigatória para bloquear os colisores induzidos pelos nós filhos!

5.2 Classes de Equivalência de Markov (I-Equivalência)

Chegamos à questão metodológica decisiva do aprendizado não supervisionado de estruturas: podemos aprender a direção causal exata de todas as arestas apenas a partir de dados observacionais passivos?

A resposta analítica é não. Considere os três grafos: 1. \(A \to B \to C\) 2. \(A \leftarrow B \leftarrow C\) 3. \(A \leftarrow B \to C\)

Todos os três codificam rigorosamente a mesma única declaração de independência condicional: \(A \perp\!\!\!\perp C \mid B\). Nenhuma matriz de dados observacionais, por maior que seja o número de transações \(N\), consegue diferenciar esses três modelos.

NotaTeorema 3 (I-Equivalência de Markov; Verma & Pearl, 1990)

Dois Grafos Acíclicos Direcionados \(\mathcal{G}_1\) e \(\mathcal{G}_2\) induzem exatamente as mesmas declarações de independência condicional (\(I(\mathcal{G}_1) = I(\mathcal{G}_2)\)) se e somente se: 1. Possuem o mesmo esqueleto (as mesmas arestas quando desconsideradas as direções); E 2. Possuem as mesmas v-structures não blindadas (os mesmos colisores \(A \to C \leftarrow B\) sem aresta direta entre \(A\) e \(B\)).

O colisor \(A \to B \leftarrow C\) é observacionalmente único: ele codifica \(A \perp\!\!\!\perp C\) (marginalmente) e \(A \not\perp\!\!\!\perp C \mid B\), sendo distinguível dos outros três. Por isso, algoritmos não supervisionados de aprendizado de estrutura (structure learning, como o algoritmo PC) retornam um Grafo Essencial (CPDAG): as arestas que formam v-structures recebem direções fixas, enquanto arestas pertencentes a cadeias/bifurcações permanecem não orientadas (\(A - B - C\)), exigindo ou ordem temporal a priori ou experimentos de intervenção ativa (\(do\)-calculus de Pearl) para determinar o fluxo causal.

5.3 Pausa Ativa 5: d-Separação e Equivalência de Markov

DicaO Limite da Observação Passiva

Suponha que, analisando 500 mil transações de varejo com os itens \(A\), \(B\) e \(C\), seus testes estatísticos comprovem que \(A \perp\!\!\!\perp C \mid B\), e nenhuma outra independência exista. É viável determinar apenas com os dados e sem fazer intervenções de preços se o modelo correto é \(A \to B \to C\) ou \(A \leftarrow B \to C\)? O que isso nos ensina sobre mineração de dados não supervisionada?

DicaV ou F: d-Separação e Equivalência

Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:

  • □ O critério de \(d\)-separação assegura que, se todos os caminhos entre \(A\) e \(B\) estiverem bloqueados por \(C\), então \(A \perp\!\!\!\perp B \mid C\) em qualquer distribuição compatível com o DAG.
  • □ A Cobertura de Markov de um nó \(X\) é formada unicamente por seus pais e seus filhos imediatos.
  • □ Dois DAGs com o mesmo esqueleto e as mesmas v-structures geram o mesmo conjunto de independências condicionais.
  • □ O grafo de colisor \(A \to B \leftarrow C\) pertence à mesma classe de equivalência de Markov que \(A \to B \to C\).

6 Fechamento

6.1 Retomando as Cinco Perguntas

  1. Como formalizar matematicamente a mineração de regras de associação e a poda do Apriori? O suporte é a probabilidade conjunta empírica \(s(I) = P(\bigwedge_{j \in I} x_j = 1)\). A propriedade de antimonotonicidade (\(A \subseteq B \implies s(B) \le s(A)\)) garante que qualquer superconjunto de um itemset infrequente é obrigatoriamente infrequente, permitindo podar exponencialmente a busca em \(2^D - 1\) combinações.
  2. Por que o Lift falha como métrica de descoberta estrutural? O Lift é estritamente simétrico (\(\text{Lift}(A \Rightarrow B) \equiv \text{Lift}(B \Rightarrow A)\)) e mede apenas o desvio da independência marginal agregada. Ele é cego a causas comuns latentes: duas variáveis independentes podem apresentar um Lift muito superior a \(1\) devido a um confundidor comum (Paradoxo de Simpson).
  3. Como as Redes Bayesianas fatoram a distribuição conjunta e geram economia paramétrica exponencial? Sob um DAG, a regra da cadeia fatora localmente: \(p(x_1, \dots, x_K) = \prod_k p(x_k \mid \text{pa}_k)\). Isso reduz o espaço de parâmetros de \(2^K - 1\) para \(O(K \cdot 2^m)\), viabilizando inferência e estimação com amostras finitas.
  4. Quais são as três geometrias canônicas de dependência condicional? Cadeia (\(A \to B \to C\), bloqueada por \(B\)), Causa Comum (\(A \leftarrow B \to C\), bloqueada por \(B\)), e Colisor (\(A \to C \leftarrow B\), aberto por \(C\)). No colisor, duas causas marginalmente independentes tornam-se dependentes ao condicionarmos no efeito comum (explaining away).
  5. Como funciona o critério geral de \(d\)-separação e quais são os limites da inferência observacional? Um caminho é bloqueado se contiver um não colisor condicionado ou um colisor não condicionado (nem em seus descendentes). Dois DAGs com o mesmo esqueleto e as mesmas v-structures pertencem à mesma classe de equivalência de Markov, impondo um limite formal: dados observacionais passivos não orientam arestas fora de v-structures.

6.2 O Que Fica em Aberto e Limitações

  • Complexidade do Aprendizado de Estrutura: Encontrar o DAG ótimo que maximiza o escore BIC/BDeu a partir de dados é NP-difícil; algoritmos práticos utilizam heurísticas gulosas ou restrições de independência (algoritmo PC).
  • Variáveis Ocultas não Observadas: Quando confundidores latentes não são medidos, as classes de equivalência tornam-se Grafos Acíclicos Ancestrais (MAGs/PAGs), exigindo o cálculo de causalidade formal (\(do\)-calculus de Pearl).
  • Dados Esparsos Massivos: Em matrizes transacionais de catálogo gigante com milhões de produtos e poucos cliques por usuário, Redes Bayesianas tornam-se densas demais; métodos de fatoração contínua de matrizes oferecem uma saída algébrica complementar.
DicaPonte para a Aula 10

Nesta aula, modelamos a dependência entre variáveis discretas através de grafos direcionados e probabilidades condicionais.

Na próxima aula (Aula 10: Sistemas de Recomendação — Fatoração de Matrizes: SVD e NMF), enfrentaremos o problema da esparsidade extrema sob uma ótica algébrica e geométrica. Investigaremos como decompor matrizes gigantescas de preferências incompletas utilizando Truncated SVD e Fatoração de Matrizes Não Negativas (NMF), demonstrando como a imposição de restrições de não negatividade altera radicalmente a interpretabilidade dos fatores latentes em partes aditivas reais.

Exercícios Soluções