Exercícios — Aula 9: Teoria de Ensembles e Redução de Variância

Supervised Learning

Autor

Marcos M. Raimundo — Instituto de Computação, UNICAMP

Data de Publicação

21 de outubro de 2026

Aula Soluções

Dica

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Contexto e notação

Nesta lista, consideramos o problema de aprendizado supervisionado de regressão e classificação sob a ótica da teoria de ensembles (ESL Cap. 8 e Cap. 15; Breiman, 1996, 2001).

Seja \(Z = \{(\mathbf{x}_1, y_1), \dots, (\mathbf{x}_N, y_N)\}\) uma amostra de treinamento com \(N\) pares i.i.d. extraídos de uma distribuição conjunta \(P(X, Y)\), onde \(\mathbf{x} \in \mathbb{R}^p\) e \(y \in \mathbb{R}\).

  1. Bootstrap e Bagging: Uma réplica bootstrap \(Z^{*b}\) de tamanho \(N\) é gerada por amostragem com reposição a partir de \(Z\). O estimador Bagging ajusta um modelo base \(T_b(\mathbf{x}) = \hat{f}(\mathbf{x}; Z^{*b})\) em cada uma de \(B\) réplicas e agrega por média aritmética: \[\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x}) = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B T_b(\mathbf{x})\]

  2. Propriedades Estatísticas: Se cada estimador base possui variância \(\text{Var}(T_b(\mathbf{x})) = \sigma^2\) e correlação par-a-par linear positiva constante \(\text{Corr}(T_b(\mathbf{x}), T_{b'}(\mathbf{x})) = \rho\) para \(b \neq b'\), a esperança e a variância do estimador médio são: \[\mathbb{E}[\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x})] = \mathbb{E}[T(\mathbf{x})], \qquad \text{Var}(\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x})) = \rho \sigma^2 + \frac{1 - \rho}{B}\sigma^2\] No limite \(B \to \infty\), \(\text{Var}(\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x})) \to \rho \sigma^2\).

  3. Florestas Aleatórias (Breiman, 2001): Além da amostragem bootstrap de instâncias, ao particionar cada nó de cada árvore, seleciona-se aleatoriamente um subconjunto de \(m \le p\) variáveis candidatas. O corte ótimo é buscado exclusivamente entre as \(m\) variáveis sorteadas. Recomenda-se \(m = \lfloor \sqrt{p} \rfloor\) em classificação e \(m = \lfloor p/3 \rfloor\) em regressão.

  4. Amostras Out-of-Bag (OOB): A probabilidade de uma dada observação \(\mathbf{z}_i\) não constar em uma amostra bootstrap de tamanho \(N\) é \(P(\mathbf{z}_i \notin Z^*) = (1 - 1/N)^N \xrightarrow{N \to \infty} 1/e \approx 0{,}368\). O preditor OOB para \(\mathbf{x}_i\) agrega apenas as árvores nas quais \(\mathbf{z}_i\) não participou do treino.

  5. Importância de Atributos:

    • Mean Decrease Impurity (MDI): soma da redução ponderada de impureza acumulada pela variável em todas as árvores.
    • Mean Decrease Accuracy (MDA): salto no erro de predição nas amostras OOB após a permutação aleatória dos valores da variável.

Questões discursivas

  1. Derivação da Variância Correlacionada e Análise de Custo-Benefício.
    Apresente a dedução matemática completa da fórmula \(\text{Var}(\bar{T}) = \rho \sigma^2 + \frac{1-\rho}{B}\sigma^2\) para um ensemble de \(B\) estimadores com variância \(\sigma^2\) e correlação mútua \(\rho\). Em seguida, suponha que um modelo Bagging com árvores não podadas atinja correlação \(\rho = 0{,}75\). Qual é a redução percentual máxima teórica na variância que pode ser obtida aumentando \(B \to \infty\) em relação a uma única árvore (\(B = 1\))? Se uma Random Forest conseguir reduzir a correlação para \(\rho = 0{,}25\) sem elevar a variância individual \(\sigma^2\), qual será a nova redução percentual máxima teórica?

  2. O Mecanismo de Supressão da Correlação e o Tradeoff de \(m\).
    Considere um problema de classificação com \(p = 64\) atributos, no qual \(2\) atributos possuem forte sinal preditivo e os outros \(62\) são moderadamente preditivos ou ruído puro. Explique em detalhes por que o Bagging tradicional (\(m = 64\)) falha em descorrelacionar as árvores, calculando a probabilidade de o corte na raiz ser conduzido por um dos dois atributos dominantes. Em seguida, calcule a probabilidade de nenhum dos dois atributos dominantes estar disponível na escolha de um nó de Random Forest com \(m = \lfloor \sqrt{64} \rfloor = 8\), e discuta o impacto dessa ausência na correlação \(\rho\) e no viés do ensemble.

  3. Mecânica Out-of-Bag e Demonstração do Limite Assintótico.
    Demonstre rigorosamente, utilizando a expansão em série de Taylor do logaritmo natural ou a definição fundamental do número \(e\), que \(\lim_{N \to \infty} (1 - 1/N)^N = e^{-1}\). Em seguida, explique por que a estimativa de erro calculada sobre as amostras Out-of-Bag (OOB) é assintoticamente equivalente a uma validação cruzada Leave-One-Out (\(N\)-fold CV), destacando por que essa propriedade não é compartilhada por métodos aditivos como o Boosting.


Questões de Verdadeiro/Falso

NotaTeste 1 — Mecânica do Bagging e Preservação do Viés
  • □ O estimador Bagging é obtido calculando a média aritmética das predições de múltiplos modelos base ajustados em amostras bootstrap independentes com reposição.
  • □ A operação de média linear entre múltiplos estimadores não paramétricos é capaz de reduzir o viés de aproximação estrutural de modelos que sofrem de subajuste severo.
  • □ Árvores de decisão não podadas (profundas) são os estimadores ideais para o Bagging porque possuem viés assintótico muito baixo acompanhado de alta variância amostral.
  • □ Como cada réplica bootstrap possui tamanho \(N\) idêntico ao conjunto original, o viés de cada árvore bootstrap é matematicamente inferior ao de uma árvore treinada no dataset original pleno.
NotaTeste 2 — Variância de Variáveis Aleatórias Correlacionadas
  • □ Na expansão da variância da soma \(\text{Var}\left(\sum_{b=1}^B T_b\right)\), existem exatamente \(B\) termos de variância individual e \(B(B-1)\) termos de covariância par-a-par.
  • □ O termo residual \(\frac{1-\rho}{B}\sigma^2\) na equação da variância do ensemble decai para zero com taxa \(O(1/B)\) à medida que o número de árvores \(B\) cresce.
  • □ Se a correlação par-a-par entre todas as árvores for estritamente nula (\(\rho = 0\)), o ensemble de tamanho finito \(B = 100\) elimina \(99\%\) da variância do estimador individual.
  • □ Se dois modelos base forem negativamente correlacionados (\(\rho < 0\)), a variância da média de ambos pode ser estritamente inferior a \(\frac{\sigma^2}{2}\).
NotaTeste 3 — Comportamento Assintótico e Limites do Bagging
  • □ O patamar assintótico de variância intransponível pelo Bagging quando \(B \to \infty\) é quantificado algebricamente pelo produto \(\rho \sigma^2\).
  • □ Adicionar mais árvores a um modelo Bagging além do ponto de estabilização do erro assintótico eventualmente fará o modelo sofrer sobreajuste (overfitting).
  • □ Estimadores lineares estáveis, como a regressão por Mínimos Quadrados Ordinários (OLS), exibem correlação bootstrap elevada (\(\rho \approx 0{,}50\)) e quase nada ganham com Bagging.
  • □ Em problemas de classificação sob a perda \(0-1\), a redução de variância promovida pelo Bagging pode, em certos cenários onde o viés é correto, reduzir a taxa de erro de forma mais agressiva que a decomposição aditiva da perda quadrática.
NotaTeste 4 — O Algoritmo de Random Forests e a Quebra de Correlação
  • □ No algoritmo de Florestas Aleatórias (Breiman, 2001), a subamostragem aleatória de \(m\) variáveis ocorre apenas uma única vez na raiz de cada árvore.
  • □ Para problemas de regressão com \(p\) variáveis, o valor canônico recomendado na literatura estatística para o número de atributos sorteados por nó é \(m = \lfloor p/3 \rfloor\).
  • □ Ajustar \(m = p\) em uma Random Forest faz o algoritmo coincidir exatamente com o Bagging de árvores de decisão.
  • □ A diminuição do hiperparâmetro \(m\) para valores muito baixos (como \(m = 1\)) reduz drasticamente a correlação \(\rho\), mas pode deteriorar o desempenho global por inflacionar o viés individual das árvores.
NotaTeste 5 — A Matemática do Bootstrap e das Amostras Out-of-Bag (OOB)
  • □ Em uma amostra bootstrap de tamanho \(N\) extraída com reposição de um conjunto com \(N\) pontos, a probabilidade de uma dada observação ser sorteada pelo menos uma vez é assintoticamente \(1 - 1/e \approx 63{,}2\%\).
  • □ A proporção assintótica de instâncias que não entram em uma réplica bootstrap específica converge para zero quando o tamanho da base de treino \(N \to \infty\).
  • □ A predição Out-of-Bag de uma observação \(\mathbf{x}_i\) é calculada utilizando a média das predições de todas as \(B\) árvores treinadas na floresta.
  • □ O erro Out-of-Bag oferece uma estimativa não enviesada do erro de generalização sem a necessidade de reservar um conjunto de teste independente ou rodar validação cruzada \(k\)-fold.
NotaTeste 6 — Interpretabilidade e Importância de Atributos: MDI vs. MDA
  • □ A métrica Mean Decrease Impurity (MDI) mede a importância acumulando a redução ponderada do índice de Gini ou do erro quadrático promovida por cada variável em todas as divisões da floresta.
  • □ O cálculo da importância por permutação (MDA) embaralha aleatoriamente a coluna do atributo de interesse exclusivamente dentro das amostras Out-of-Bag (OOB) de cada árvore.
  • □ A métrica MDI possui um viés sistemático que tende a superestimar a importância de atributos categóricos ou contínuos com alta cardinalidade (muitos valores distintos).
  • □ Se um atributo puramente aleatório e sem poder preditivo for incluído no treinamento de uma Random Forest, o MDA atribuirá a ele uma importância próxima de zero ou discretamente negativa.
NotaTeste 7 — Diagnóstico Prático e Comparação de Modelos
  • □ Uma árvore de decisão única profunda ajustada em dados complexos exibe tipicamente erro de treino próximo de zero e erro de teste substancialmente elevado, caracterizando alta variância.
  • □ O erro de teste de uma Random Forest diminui monotonicamente à medida que aumentamos o número de árvores \(B\), atingindo eventualmente zero com \(B\) suficientemente grande.
  • □ A convergência do erro OOB ao longo do crescimento de \(B\) pode ser utilizada como critério prático de parada para o treinamento de Random Forests.
  • □ Florestas Aleatórias requerem normalização ou padronização prévia rigorosa de variáveis numéricas (como z-score) para que atributos em escalas maiores não dominem as divisões de corte.
NotaTeste 8 — Transferência de Conceitos: Bagging vs. Boosting
  • □ Tanto o Bagging quanto o Boosting utilizam amostragem bootstrap com reposição para treinar seus modelos base de forma independente e simultânea em paralelo.
  • □ Enquanto o Bagging parte de modelos de alta flexibilidade (baixo viés) para reduzir variância, o Boosting combina iterativamente modelos simples (alto viés) para reduzir viés.
  • □ Em ensembles do tipo Bagging, nenhuma árvore depende dos erros residuais cometidos pelas árvores previamente treinadas.
  • □ Ao contrário de Random Forests, que são imunes ao sobreajuste pelo simples acréscimo de árvores \(B \to \infty\), algoritmos de Boosting podem sofrer sobreajuste se o número de iterações for excessivo.