Aula 9: Teoria de Ensembles e Redução de Variância — Bagging e Random Forests
Supervised Learning
1 Revisão e Introdução
1.1 Revisão: O Que a Decomposição Viés-Variância Diz
Na Aula 8, encerramos a Parte 2 do curso derivando analiticamente a decomposição formal do Erro Quadrático Médio Esperado (\(\text{EMSE}\)):
\[\text{EMSE}(\mathbf{x}) = \mathbb{E}_{\mathcal{D}, \epsilon}\left[(y - \hat{f}(\mathbf{x}; \mathcal{D}))^2\right] = \text{Bias}^2(\mathbf{x}) + \text{Var}(\mathbf{x}) + \sigma^2\]
onde \(\text{Bias}^2(\mathbf{x}) = (f(\mathbf{x}) - \bar{f}(\mathbf{x}))^2\) mede o erro de aproximação estrutural do estimador médio \(\bar{f}(\mathbf{x}) = \mathbb{E}_{\mathcal{D}}[\hat{f}(\mathbf{x}; \mathcal{D})]\), \(\text{Var}(\mathbf{x}) = \mathbb{E}_{\mathcal{D}}[(\hat{f}(\mathbf{x}; \mathcal{D}) - \bar{f}(\mathbf{x}))^2]\) captura a variabilidade estocástica do ajuste entre diferentes conjuntos de treino finitos \(\mathcal{D} \sim P(X, Y)^N\), e \(\sigma^2\) é o ruído irredutível do processo gerador.
Ao analisar o comportamento de diferentes classes de hipóteses sob essa ótica, identificamos duas patologias extremas: 1. Modelos de Alto Viés (Rígidos): Regressões lineares simples ou árvores de decisão podadas em profundidades mínimas (decision stumps) sofrem de subajuste (underfitting). Sua rigidez estrutural é incapaz de capturar não linearidades e interações complexas entre atributos. 2. Modelos de Alta Variância (Instáveis): Árvores de decisão não podadas (CART, estudadas na Aula 3) particionam o espaço recursivamente até que cada folha contenha apenas uma observação (ou um nó purificado). Tais árvores exibem um viés assintótico extremamente baixo (\(\text{Bias}^2 \approx 0\)), pois possuem capacidade suficiente para interpolar a superfície de regressão; contudo, sua variância explode (\(\text{Var} \gg 0\)). Pequenas perturbações em uma única observação de treino alteram o primeiro corte na raiz, propagando divisões radicalmente distintas por toda a hierarquia da árvore.
Na Aula 7, vimos que a regularização Ridge (\(L_2\)) combate a variância injetando viés deliberado através do encolhimento de parâmetros. Mas surge agora a questão fundamental da Parte 3 do curso: é possível abater a variância drástica de modelos complexos sem pagar o preço de aumentar seu viés?
1.2 Ideia Central: A Média Estatística como Estabilizador
Se considerarmos a predição \(\hat{f}(\mathbf{x}; \mathcal{D})\) de um estimador como uma variável aleatória condicionada à realização da amostra \(\mathcal{D}\), a teoria clássica de probabilidades nos ensina que a média de múltiplas variáveis aleatórias independentes possui a mesma esperança de cada variável individual, mas uma variância dividida pelo número de termos.
Assim, se pudéssemos coletar \(B\) conjuntos de treinamento independentes \(\mathcal{D}_1, \dots, \mathcal{D}_B\) da distribuição populacional \(P(X, Y)\), ajustar uma árvore profunda em cada um e calcular a predição média:
\[\bar{f}_B(\mathbf{x}) = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \hat{f}(\mathbf{x}; \mathcal{D}_b)\]
obteríamos um estimador com exatamente o mesmo baixo viés de uma única árvore, mas com variância reduzida por um fator \(1/B\).
No entanto, em problemas práticos de aprendizado supervisionado, possuímos apenas uma única amostra de treino \(\mathcal{D}\). A solução proposta por Leo Breiman (1996, 2001) reside na combinação de duas técnicas profundas: 1. Bootstrap Aggregation (Bagging): Simular a amostragem da população reamostrando o próprio conjunto de treino com reposição (\(Z^{*b} \sim \hat{P}_N\)). 2. Subamostragem de Atributos (Random Forests): Forçar a descorrelação entre as árvores sortando um subconjunto restrito de \(m \le p\) variáveis em cada ponto de corte, quebrando a dependência residual imposta pela dominância dos atributos mais fortes.
1.3 Roteiro da Aula
Para construir e validar formalmente essa teoria, estruturamos nossa investigação em cinco perguntas fundamentais:
- Por que a média de estimadores preserva rigorosamente o viés original enquanto opera na variância?
- Como demonstrar analiticamente a fórmula da variância para variáveis aleatórias correlacionadas \(\rho \sigma^2 + \frac{1-\rho}{B}\sigma^2\)?
- Qual é o gargalo assintótico do Bagging puro e como a seleção aleatória de atributos de Breiman (2001) reduz o teto \(\rho \sigma^2\)?
- Por que aproximadamente \(36{,}8\%\) dos dados não entram em cada réplica bootstrap e como utilizá-los para validação Out-of-Bag (OOB) sem custo computacional adicional?
- Quais são os mecanismos matemáticos e as armadilhas práticas das métricas de importância de variáveis por impureza (MDI) vs. por permutação (MDA)?
1.4 Problema Motivador: A Instabilidade de uma Única Árvore
Para observar numericamente o problema da variância, treinamos uma árvore de decisão de regressão profunda (DecisionTreeRegressor) no conjunto California Housing com \(N = 2.000\) observações de treino e \(1.000\) de teste.
Os resultados empíricos revelam a assinatura imediata do sobreajuste severo: - Erro de Treino da Árvore Única: \(\text{MSE}_{\text{treino}} = 0{,}0000\) (a árvore atingiu folhas puras, interpolando os dados de treino perfeitamente). - Erro de Teste da Árvore Única: \(\text{MSE}_{\text{teste}} = 0{,}6133\).
Quando geramos um ensemble Bagging com \(B = 100\) árvores bootstrapped sobre esse mesmo conjunto, o erro de teste cai imediatamente para \(0{,}3044\) (uma redução de mais de \(50\%\) no erro quadrático). Ao aplicarmos Florestas Aleatórias com seleção aleatória de \(m = 3\) variáveis por corte, o erro de teste recua ainda mais, atingindo \(0{,}2897\).
O gráfico a seguir ilustra a evolução do erro quadrático médio de teste em função do número de árvores \(B \in [1, 100]\):
1.5 Pausa 1: Mecânica da Média e Comportamento do Viés
Um cientista de dados treina uma regressão linear simples \(y = \beta_0 + \beta_1 x\) para aproximar uma função fortemente senoidal e observa um erro de treino elevado e um erro de validação igualmente elevado (\(\text{MSE} \approx 0{,}85\)). O pesquisador então sugere: “Vamos aplicar Bagging com \(B = 500\) réplicas bootstrap para resolver o problema.” Qual é o erro fundamental dessa estratégia?
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ A média aritmética das predições de múltiplos modelos possui, por linearidade da esperança, um viés idêntico ao viés esperado de cada modelo base individual.
- □ O Bagging é uma técnica projetada primariamente para combater o viés de modelos que sofrem de subajuste (underfitting).
- □ Em árvores de decisão profundas, o viés é naturalmente baixo devido à alta flexibilidade de particionamento local do espaço de atributos.
- □ Aumentar o número de árvores \(B\) indefinidamente em um ensemble Bagging eventualmente levará o modelo a sofrer sobreajuste (overfitting).
2 Intuição — A Sabedoria das Multidões Correlacionadas
2.1 O Efeito Comitê: Variância sob Independência
A intuição fundamental dos métodos de ensemble remete ao Teorema do Júri de Condorcet (1785): se cada membro de um comitê possui probabilidade de acerto superior ao acaso (\(p > 0{,}5\)) e julga de maneira estritamente independente, a probabilidade de a decisão majoritária do grupo estar correta converge para \(1\) à medida que o tamanho do comitê cresce.
Em aprendizado de máquina, quando estimamos uma quantidade contínua \(y\), o análogo do júri é a média aritmética das predições. Vejamos formalmente o que acontece com a variância da média quando combinamos múltiplos estimadores sob a hipótese ideal de independência estatística.
Demonstração Passo a Passo:
Pela propriedade fundamental de escalonamento da variância, ao multiplicar uma variável aleatória por uma constante \(c\), sua variância é multiplicada por \(c^2\) (\(\text{Var}(c X) = c^2 \text{Var}(X)\)). Aplicando para a constante \(c = 1/B\): \[\text{Var}(\bar{f}_B(\mathbf{x})) = \text{Var}\left(\frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \hat{f}_b(\mathbf{x})\right) = \frac{1}{B^2} \text{Var}\left(\sum_{b=1}^B \hat{f}_b(\mathbf{x})\right)\]
Expandindo a variância da soma na soma das variâncias individuais mais todas as covariâncias cruzadas par-a-par: \[\text{Var}\left(\sum_{b=1}^B \hat{f}_b(\mathbf{x})\right) = \sum_{b=1}^B \text{Var}(\hat{f}_b(\mathbf{x})) + \sum_{b=1}^B \sum_{b' \neq b}^B \text{Cov}(\hat{f}_b(\mathbf{x}), \hat{f}_{b'}(\mathbf{x}))\]
Como todos os \(B\) estimadores possuem variância idêntica \(\text{Var}(\hat{f}_b(\mathbf{x})) = \sigma^2\): \[\sum_{b=1}^B \text{Var}(\hat{f}_b(\mathbf{x})) = \sum_{b=1}^B \sigma^2 = B \sigma^2\]
Pela hipótese de independência estatística, os erros cometidos pelos diferentes modelos não guardam nenhuma associação entre si, de modo que \(\text{Cov}(\hat{f}_b(\mathbf{x}), \hat{f}_{b'}(\mathbf{x})) = 0\) para todos os \(B(B - 1)\) pares com \(b \neq b'\). Portanto: \[\sum_{b=1}^B \sum_{b' \neq b}^B \text{Cov}(\hat{f}_b(\mathbf{x}), \hat{f}_{b'}(\mathbf{x})) = 0\]
Substituindo esses dois resultados de volta na expressão da variância da média: \[\text{Var}(\bar{f}_B(\mathbf{x})) = \frac{1}{B^2} \left[ B\sigma^2 + 0 \right] = \frac{B\sigma^2}{B^2} = \frac{\sigma^2}{B} \quad \blacksquare\]
Tomando o limite assintótico quando o número de modelos cresce indefinidamente: \[\lim_{B \to \infty} \text{Var}(\bar{f}_B(\mathbf{x})) = \lim_{B \to \infty} \frac{\sigma^2}{B} = 0\]
Sob independência estrita, o ruído aleatório das predições se cancela mutuamente na média aritmética, e o erro de variância é completamente eliminado!
2.2 Bebendo da Mesma Fonte: Dependência Amostral
A demonstração anterior sugere um cenário tentador: bastaria treinar um número grande de modelos (\(B \to \infty\)) para que o erro de variância desaparecesse por completo. Contudo, em aprendizado de máquina supervisionado, esse sonho assintótico não se concretiza.
2.2.1 Por que os Modelos Não São Independentes?
A hipótese de que \(\text{Cov}(\hat{f}_b, \hat{f}_{b'}) = 0\) requer que cada modelo seja treinado em um conjunto de dados completamente novo e independente gerado pela natureza. No mundo real, o cientista de dados dispõe de apenas uma única amostra finita \(\mathcal{D} = \{(\mathbf{x}_1, y_1), \dots, (\mathbf{x}_N, y_N)\}\).
Quando aplicamos o Bagging, as réplicas \(\mathcal{D}^{*1}, \dots, \mathcal{D}^{*B}\) são sintetizadas reamostrando com reposição desse mesmíssimo conjunto \(\mathcal{D}\). Em outras palavras, todos os estimadores \(\hat{f}_1, \dots, \hat{f}_B\) bebem da mesma fonte: 1. Compartilhamento de Dados: Cada réplica bootstrap compartilha em média cerca de \(63{,}2\%\) dos dados originais de \(\mathcal{D}\). 2. Erros Correlacionados: Se o conjunto \(\mathcal{D}\) contiver ruídos locais, outliers ou correlações acidentais da amostra, todas as árvores enxergarão essas mesmas peculiaridades e tenderão a errar na mesma direção para as mesmas entradas.
2.2.2 A Consequência: \(\text{Cov} \neq 0\) Gera Outra Fórmula
Como os modelos bebem da mesma fonte, a covariância entre eles é estritamente positiva: \[\text{Cov}(\hat{f}_b(\mathbf{x}), \hat{f}_{b'}(\mathbf{x})) = \rho \sigma^2 > 0 \quad (\forall b \neq b')\] onde \(\rho = \text{Corr}(\hat{f}_b, \hat{f}_{b'}) \in (0, 1)\) é a correlação média par-a-par entre os modelos.
Quando \(\text{Cov} \neq 0\), os \(B(B - 1)\) termos cruzados da soma não se anulam mais! A variância do comitê passa a ser governada por uma fórmula diferente (cuja demonstração algébrica completa apresentamos no Bloco 1): \[\text{Var}(\bar{f}_B(\mathbf{x})) = \rho\sigma^2 + \frac{1 - \rho}{B}\sigma^2\]
Tomando o limite assintótico \(B \to \infty\): \[\lim_{B \to \infty} \text{Var}(\bar{f}_B(\mathbf{x})) = \rho\sigma^2 > 0\]
[!IMPORTANT] A Lição Central do Efeito Comitê: A média aritmética elimina com eficiência o ruído idiossincrático puramente individual de cada modelo (o termo \(\frac{1-\rho}{B}\sigma^2 \to 0\)). Porém, ela é completamente impotente diante da variação sistemática compartilhada pela fonte comum (\(\rho\sigma^2\)). O termo \(\rho\sigma^2\) atua como um piso intransponível de variância (variance floor).
Para avançar além do Bagging, não adianta apenas aumentar \(B\): é indispensável atacar a correlação \(\rho\). É dessa necessidade que nascem as Random Forests!
2.3 Por que Estimadores Lineares Não Ganham com Bagging
Uma constatação empírica e teórica crucial (ESL §8.7 e §15.2) é que nem todo algoritmo supervisionado se beneficia do Bagging.
Estimadores estáveis e lineares nos dados, como a média amostral \(\bar{X} = \frac{1}{N}\sum_{i=1}^N x_i\) ou a regressão linear por Mínimos Quadrados Ordinários (OLS), quase nada ganham ao serem submetidos ao bootstrap aggregation. De fato, a esperança da média bootstrap \(\mathbb{E}_{*}\left[\bar{X}^*\right]\) é algebricamente idêntica à média da amostra original:
\[\mathbb{E}_*\left[\frac{1}{N}\sum_{i=1}^N X_i^*\right] = \frac{1}{N}\sum_{i=1}^N \mathbb{E}_*[X_i^*] = \frac{1}{N}\sum_{i=1}^N \bar{X} = \bar{X}\]
A correlação par-a-par entre estimativas OLS ajustadas em réplicas bootstrap de uma mesma amostra gira em torno de \(\rho \approx 0{,}50\) (exercício 15.4 do ESL), fazendo com que a média do ensemble produza praticamente o mesmo hiperplano que o OLS treinado uma única vez.
Em contrapartida, árvores de decisão são altamente não lineares e estruturalmente instáveis: - Um corte ligeiramente deslocado no nó raiz altera todos os nós descendentes. - Essa instabilidade faz com que cada árvore explore regiões e combinações geométricas distintas do espaço de atributos. - O Bagging atua como uma operação de suavização (smoothing), transformando as fronteiras rígidas em degraus de uma única árvore em superfícies suaves e contínuas de probabilidade e regressão.
2.4 O Mecanismo em Diagrama: Da Amostragem à Decisão
2.5 Pausa 2: Perturbação de Dados e Estabilidade
Considere dois algoritmos supervisionados: um classificador vizinhos mais próximos com \(k = 1\) (\(1\)-NN) e um classificador linear por Análise Discriminante Linear (LDA) com matriz de covariância compartilhada. Em qual dos dois algoritmos você espera que o Bagging produza a redução de erro de generalização mais expressiva?
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Estimadores lineares como Mínimos Quadrados Ordinários exibem grande ganho preditivo sob Bagging porque sua variância original é muito elevada.
- □ O classificador \(1\)-NN é instável a pequenas perturbações nas fronteiras de dados, sendo um forte candidato a se beneficiar do agregamento por bootstrap.
- □ A operação de agregação por média do Bagging reduz a descontinuidade das fronteiras de decisão geradas por árvores CART.
- □ Se os erros de predição de todos os modelos base forem perfeitamente correlacionados (\(\rho = 1\)), a variância do ensemble será idêntica à variância de um único modelo base.
3 Bloco 1: Bagging e a Teoria Estatística da Média de Estimadores
3.1 O Princípio do Bootstrap: De Efron (1979) a Breiman (1996)
Antes de definir formalmente o algoritmo de Bagging, é fundamental compreender a ferramenta probabilística sobre a qual todo o método se apoia: o Bootstrap não paramétrico, introduzido pelo estatístico Bradley Efron em 1979.
O nome faz alusão à expressão em inglês “to pull oneself up by one’s own bootstraps” (famosa na lenda das aventuras do Barão de Münchhausen, que afirmava ter conseguido se retirar de um atoleiro puxando os próprios cadarços de sua bota). Em inferência estatística, a metáfora traduz uma ambição análoga: como podemos avaliar a incerteza e a variabilidade de um estimador usando apenas a própria amostra de dados disponível, sem recorrer a novas coletas nem assumir distribuições paramétricas teóricas irrealistas?
3.1.1 O Princípio do Plug-in de Efron
Suponha que dispomos de uma amostra de treinamento \(Z = \{\mathbf{z}_1, \dots, \mathbf{z}_N\}\), onde cada \(\mathbf{z}_i = (\mathbf{x}_i, y_i)\) foi gerado independentemente a partir de uma distribuição populacional verdadeira, porém desconhecida, \(P\).
Idealmente, para medir a variância de um estimador \(\hat{\theta} = g(Z)\), gostaríamos de repetir o experimento da natureza sorteando centenas de novos conjuntos de treino de tamanho \(N\) diretamente de \(P\). Como isso é impraticável na vida real, a ideia revolucionária de Efron foi aplicar o Princípio do Plug-in: - Substituímos a distribuição populacional desconhecida \(P\) pela distribuição empírica \(\hat{P}_N\), definida como a probabilidade discreta uniforme que coloca massa \(1/N\) em cada observação realizada: \[\hat{P}_N(A) = \frac{1}{N} \sum_{i=1}^N \mathbb{I}(\mathbf{z}_i \in A)\] - Em vez de reamostrar da natureza \(P\), reamostramos da distribuição empírica \(\hat{P}_N\).
3.1.2 O Mecanismo da Reamostragem com Reposição
Sortear da distribuição empírica \(\hat{P}_N\) equivale operacionalmente a realizar uma amostragem com reposição de tamanho \(N\) a partir da amostra original \(Z\): 1. A cada passo, sorteamos um ponto \(\mathbf{z}_i \in Z\) com probabilidade uniforme \(1/N\). 2. Registramos o ponto na nova réplica \(Z^*\). 3. Devolvemos o ponto à urna, de modo que ele permanece elegível para ser sorteado novamente nos sorteios seguintes. 4. Repetimos o processo exatamente \(N\) vezes, obtendo a réplica bootstrap \(Z^* = \{\mathbf{z}_1^*, \dots, \mathbf{z}_N^*\}\).
A reposição é o coração do algoritmo: - Se a amostragem fosse realizada sem reposição, cada amostra \(Z^*\) conteria exatamente os mesmos \(N\) elementos originais (seria apenas uma permutação da ordem dos dados), gerando exatamente o mesmo estimador. - Com reposição, criamos uma combinatória rica: algumas observações aparecem duplicadas, triplicadas ou multiplicadas, enquanto cerca de \(36{,}8\%\) das observações originais ficam completamente de fora da amostra (o conjunto Out-of-Bag, que deduziremos formalmente no Bloco 3).
3.1.3 O Salto de Breiman (1996): Do Diagnóstico ao Tratamento
Originalmente, Efron concebeu o bootstrap para fins de inferência descritiva: avaliar a precisão de um estimador \(\hat{\theta}\) calculando a variância amostral de réplicas \(\hat{\theta}^{*1}, \dots, \hat{\theta}^{*B}\).
Dezessete anos depois, Leo Breiman (1996) teve uma percepção que transformou o aprendizado de máquina: > “Se temos um estimador instável com alta variância (como uma árvore CART), por que usar o bootstrap apenas para lamentar que sua variância é grande? Por que não treinar um preditor em cada amostra bootstrap e agregar suas predições pela média para reduzir ativamente essa variância?”
Esse casamento entre Bootstrap e Aggregating gerou o termo e o método que definimos formalmente a seguir: Bagging.
3.2 Definição Formal do Estimador Bagging
Formalizamos o procedimento de Bootstrap Aggregation (Bagging) proposto por Breiman (1996) e detalhado em ESL §8.7.
Seja \(Z = \{(\mathbf{x}_1, y_1), \dots, (\mathbf{x}_N, y_N)\}\) o conjunto de dados de treinamento com \(N\) pares observados independentes e identicamente distribuídos a partir de uma distribuição desconhecida \(P(X, Y)\). Seja \(\hat{f}(\mathbf{x}) = \hat{f}(\mathbf{x}; Z)\) o preditor ajustado aos dados \(Z\).
3.3 O Viés Não é Reduzido: Demonstração Formal
Um erro conceitual recorrente é supor que agregar modelos por média ajuda a corrigir predições incorretas de forma a diminuir o viés do estimador. Demonstramos formalmente que o viés de \(\hat{f}_{\text{bag}}\) é idêntico ao viés esperado de uma única árvore bootstrap:
Demonstração: Por definição, o viés do estimador Bagging em relação ao valor verdadeiro da função de regressão \(f(\mathbf{x}) = \mathbb{E}[Y \mid X = \mathbf{x}]\) é dado por:
\[\text{Bias}(\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x})) = \mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x})\right] - f(\mathbf{x})\]
Substituindo a definição da média finita de Bagging:
\[\mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x})\right] = \mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \hat{f}^{*b}(\mathbf{x})\right]\]
Pela linearidade da esperança matemática:
\[\mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \hat{f}^{*b}(\mathbf{x})\right] = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\hat{f}^{*b}(\mathbf{x})\right]\]
Como todas as réplicas bootstrap \(Z^{*b}\) são extraídas sob o mesmo processo estocástico identicamente distribuído (\(\hat{P}_N\) condicionada a \(Z\)), cada árvore \(\hat{f}^{*b}(\mathbf{x})\) possui rigorosamente a mesma esperança marginal: \(\mathbb{E}_{\mathcal{D}}[\hat{f}^{*b}(\mathbf{x})] = \mathbb{E}_{\mathcal{D}}[\hat{f}^*(\mathbf{x})]\). Portanto:
\[\frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\hat{f}^{*b}(\mathbf{x})\right] = \frac{1}{B} \cdot B \cdot \mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\hat{f}^*(\mathbf{x})\right] = \mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\hat{f}^*(\mathbf{x})\right]\]
Subtraindo \(f(\mathbf{x})\) em ambos os lados, concluímos que:
\[\text{Bias}(\hat{f}_{\text{bag}}(\mathbf{x})) = \mathbb{E}_{\mathcal{D}}\left[\hat{f}^*(\mathbf{x})\right] - f(\mathbf{x}) = \text{Bias}(\hat{f}^*(\mathbf{x})) \quad \blacksquare\]
Na prática, o viés de \(\hat{f}^*(\mathbf{x})\) chega a ser ligeiramente superior ao viés da árvore treinada na amostra plena original \(Z\), pois uma amostra bootstrap contém em média apenas cerca de \(63{,}2\%\) das observações únicas de \(Z\) (o restante são duplicatas), o que reduz ligeiramente o tamanho efetivo de treino. Logo, o Bagging nunca atua na redução de viés. Todo o ganho preditivo provém exclusivamente da redução de variância.
3.4 Teorema da Variância de Variáveis Correlacionadas
Apresentamos agora a derivação completa do resultado central que governa o comportamento estatístico de ensembles por agregação, demonstrando como a correlação entre os modelos atua na variância final.
Demonstração: Por definição das propriedades da variância da soma de variáveis aleatórias:
\[\text{Var}(\bar{T}) = \text{Var}\left(\frac{1}{B} \sum_{b=1}^B T_b\right) = \frac{1}{B^2} \text{Var}\left(\sum_{b=1}^B T_b\right)\]
Expandindo a variância da soma na soma das variâncias individuais mais todas as covariâncias cruzadas par-a-par:
\[\text{Var}\left(\sum_{b=1}^B T_b\right) = \sum_{b=1}^B \text{Var}(T_b) + \sum_{b=1}^B \sum_{b' \neq b} \text{Cov}(T_b, T_{b'})\]
Como cada variável possui variância idêntica \(\text{Var}(T_b) = \sigma^2\), a primeira somatória contém exatamente \(B\) termos iguais a \(\sigma^2\):
\[\sum_{b=1}^B \text{Var}(T_b) = B \sigma^2\]
Para a segunda somatória, o número de pares ordenados distintos \((b, b')\) com \(b \neq b'\) em um conjunto de tamanho \(B\) é dado por \(B(B - 1)\).
Lembrando que a correlação linear é definida por \(\rho = \frac{\text{Cov}(T_b, T_{b'})}{\sqrt{\text{Var}(T_b)\text{Var}(T_{b'})}} = \frac{\text{Cov}(T_b, T_{b'})}{\sigma^2}\), temos que:
\[\text{Cov}(T_b, T_{b'}) = \rho \sigma^2 \quad (\forall b \neq b')\]
Substituindo a covariância constante na segunda somatória:
\[\sum_{b=1}^B \sum_{b' \neq b} \text{Cov}(T_b, T_{b'}) = B(B - 1) \rho \sigma^2\]
Reunindo os dois termos:
\[\text{Var}\left(\sum_{b=1}^B T_b\right) = B \sigma^2 + B(B - 1)\rho \sigma^2\]
Dividindo toda a expressão por \(B^2\):
\[\text{Var}(\bar{T}) = \frac{B \sigma^2 + B(B - 1)\rho \sigma^2}{B^2} = \frac{\sigma^2}{B} + \frac{B - 1}{B} \rho \sigma^2\]
Reescrevendo a fração \(\frac{B - 1}{B}\) como \(\left(1 - \frac{1}{B}\right)\):
\[\text{Var}(\bar{T}) = \frac{\sigma^2}{B} + \rho \sigma^2 - \frac{\rho \sigma^2}{B}\]
Agrupando os termos que contêm o denominador \(B\):
\[\text{Var}(\bar{T}) = \rho \sigma^2 + \frac{(1 - \rho)\sigma^2}{B} = \rho \sigma^2 + \frac{1 - \rho}{B}\sigma^2 \quad \blacksquare\]
3.5 O Gargalo Fundamental do Bagging: A Correlação \(\rho\)
A equação \(\text{Var}(\bar{T}) = \rho \sigma^2 + \frac{1 - \rho}{B}\sigma^2\) revela imediatamente os limites e as propriedades assintóticas do Bagging:
- Quando \(B = 1\): \(\text{Var}(\bar{T}) = \rho \sigma^2 + (1 - \rho)\sigma^2 = \sigma^2\) (a variância de uma única árvore individual).
- Quando \(B \to \infty\): O segundo termo decai a zero (\(\lim_{B \to \infty} \frac{1 - \rho}{B}\sigma^2 = 0\)), mas o primeiro termo permanece inalterado: \[\lim_{B \to \infty} \text{Var}(\bar{T}) = \rho \sigma^2\]
Isso significa que mesmo que treinemos \(B = 100.000\) árvores no ensemble, a variância jamais cairá abaixo de \(\rho \sigma^2\). A correlação \(\rho\) entre os preditores atua como uma barreira intransponível.
No Bagging convencional com árvores de decisão, como todas as árvores têm acesso a todas as \(p\) variáveis em todas as divisões, os atributos mais fortes (como MedInc no California Housing) serão quase invariavelmente selecionados no nó raiz e nas primeiras bifurcações de quase todas as árvores. Consequentemente, as árvores tornam-se estruturalmente semelhantes entre si, induzindo valores elevados de \(\rho\) (frequentemente \(\rho > 0{,}70\)).
O gráfico a seguir exibe o comportamento analítico da variância em função de \(B\) para diferentes níveis de correlação \(\rho \in \{0{,}1, 0{,}3, 0{,}6, 0{,}9\}\) assumindo \(\sigma^2 = 1{,}0\):
3.6 Pausa 3: O Teto da Variância e o Número de Árvores
Um engenheiro de infraestrutura nota que treinar \(B = 50\) árvores reduziu o MSE de \(0{,}60\) para \(0{,}32\). Ele propõe alocar mais servidores para rodar \(B = 5.000\) árvores na esperança de reduzir o MSE para perto de zero. Avalie se esse investimento se justifica com base na fórmula da variância correlacionada.
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Se a correlação par-a-par \(\rho\) entre as árvores for estritamente nula (\(\rho = 0\)), a variância do ensemble converge a zero quando \(B \to \infty\).
- □ Dobrar o número de árvores de \(B = 100\) para \(B = 200\) reduzirá a variância do ensemble pela metade, independentemente do valor de \(\rho\).
- □ O valor mínimo teórico que a variância de um ensemble Bagging pode atingir quando \(B \to \infty\) é delimitado pelo produto \(\rho \sigma^2\).
- □ Adicionar árvores a um modelo Random Forest pode aumentar o viés do estimador se \(B\) for excessivamente grande.
4 Bloco 2: Florestas Aleatórias (Random Forests) e a Quebra da Correlação
4.1 O Algoritmo de Breiman (2001) e a Aleatoriedade Dupla
Se o gargalo intransponível do Bagging reside na correlação \(\rho\), como podemos reduzir \(\rho\) sem precisar de dados novos da natureza?
A resposta brilhante de Leo Breiman (2001) foi a introdução das Florestas Aleatórias (Random Forests). A ideia mestra consiste em forçar a descorrelação entre as árvores através de uma injeção deliberada de aleatoriedade no processo de construção de cada nó da árvore:
A grande novidade estrutural reside no passo 1.b.i: a escolha aleatória de \(m\) preditores ocorre em cada nó de cada árvore, e não apenas uma vez no início da árvore.
4.2 Regras Práticas e a Escolha de \(m\)
A escolha do hiperparâmetro \(m\) (número de atributos sorteados por divisão) dita o comportamento de todo o modelo. Breiman (2001) e Hastie et al. (ESL §15.3, p. 592) estabeleceram os valores padrão de referência:
- Classificação: \(m = \lfloor \sqrt{p} \rfloor\), com nós terminais de tamanho mínimo \(n_{\min} = 1\).
- Regressão: \(m = \lfloor p/3 \rfloor\), com nós terminais de tamanho mínimo \(n_{\min} = 5\).
O que acontece nos extremos de \(m\)? 1. Se \(m = p\): Recuperamos exatamente o Bagging convencional. Todas as variáveis competem em cada divisão. O atributo preditor mais forte sempre vencerá a disputa nos nós superiores, gerando árvores fortemente correlacionadas (\(\rho\) elevado). 2. Se \(m = 1\): Em cada nó, a árvore é forçada a dividir segundo uma única variável sorteada a esmo. A correlação \(\rho\) atinge seu mínimo histórico; no entanto, como a árvore perde a capacidade de escolher variáveis informativas, o viés estrutural de cada árvore individual aumenta consideravelmente, e sua variância individual \(\sigma^2\) também se eleva.
A escolha ótima de \(m\) opera um tradeoff interno de viés e descorrelação: queremos \(m\) suficientemente pequeno para quebrar \(\rho\), mas suficientemente grande para permitir que as árvores capturem as direções preditivas essenciais dos dados.
4.3 Como \(m\) Quebra a Correlação no California Housing
Para quantificar experimentalmente a ação de \(m\), avaliamos ensembles de 100 árvores variando \(m \in \{1, 2, 3, 5, 8\}\) no conjunto California Housing (\(p = 8\) variáveis). Calculamos a matriz de correlação empírica entre os vetores de predição de teste de todas as árvores e a variância média de predição individual.
Os resultados numéricos obtidos confirmam a teoria com precisão milimétrica: - Para \(m = 8\) (Bagging puro): a correlação média é \(\rho = 0{,}7026\), com erro de teste \(\text{MSE}_{\text{teste}} = 0{,}3036\). - Para \(m = 3\) (regra \(p/3 \approx 2{,}67\)): a correlação cai para \(\rho = 0{,}6582\), e o erro de teste atinge seu mínimo global em \(\text{MSE}_{\text{teste}} = 0{,}2897\). - Para \(m = 1\) (aleatoriedade extrema): a correlação desaba para \(\rho = 0{,}4917\); contudo, o erro de teste sobe para \(0{,}3589\) devido ao acréscimo de viés e dispersão das árvores individuais.
O painel duplo a seguir ilustra a queda monotônica de \(\rho\) e a clássica curva em U do erro quadrático médio em função de \(m\):
4.4 Pausa 4: A Dinâmica de \(m\) e a Supressão de Atributos
Uma base de dados médica com \(p = 100\) atributos contínuos onde um único biomarcador \(X_1\) possui correlação linear extrema com a doença (\(r = 0{,}98\)), enquanto outros \(99\) possuem correlações sutis (\(r \approx 0{,}15\)). O que ocorrerá com a estrutura das árvores no Bagging (\(m = 100\)) comparado a uma Random Forest com \(m = 10\)?
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Reduzir o hiperparâmetro \(m\) em Random Forests sempre reduz o viés das árvores individuais que compõem o modelo.
- □ No Bagging (\(m = p\)), se existir um atributo fortemente dominante nos dados, quase todas as árvores do ensemble realizarão o primeiro corte no mesmo atributo.
- □ A subamostragem aleatória de atributos (\(m < p\)) permite que preditores moderadamente informativos tenham a oportunidade de liderar os cortes primários da árvore.
- □ Ajustar \(m = 1\) garante a menor correlação teórica entre árvores, mas pode deteriorar o erro de generalização por excesso de viés.
5 Bloco 3: Avaliação Out-of-Bag (OOB) e Importância de Atributos
5.1 Bootstrap: Dedução da Probabilidade \(1 - 1/e\)
Uma das propriedades matemáticas mais elegantes do bootstrap em árvores de decisão é que a própria reamostragem com reposição gera, gratuitamente, um conjunto de validação independente para cada modelo base: as observações Out-of-Bag (OOB).
Deduzimos formalmente a proporção assintótica de observações que ficam fora de uma amostra bootstrap:
Demonstração: Em cada sorteio independente com reposição a partir de \(Z\), cada uma das \(N\) observações possui probabilidade uniforme \(1/N\) de ser selecionada. Consequentemente, a probabilidade de uma observação específica \(\mathbf{z}_i\) não ser escolhida em uma extração particular é:
\[P(\text{não sortear } \mathbf{z}_i \text{ no sorteio } j) = 1 - \frac{1}{N}\]
Como a amostra bootstrap consiste em \(N\) sorteios mutuamente independentes e identicamente distribuídos:
\[P(\mathbf{z}_i \notin Z^*) = \prod_{j=1}^N \left(1 - \frac{1}{N}\right) = \left(1 - \frac{1}{N}\right)^N\]
Para obter o limite assintótico quando \(N \to \infty\), aplicamos a transformação logarítmica:
\[\ln L = \lim_{N \to \infty} \ln \left[\left(1 - \frac{1}{N}\right)^N\right] = \lim_{N \to \infty} N \ln \left(1 - \frac{1}{N}\right)\]
Utilizando a expansão em série de Taylor de \(\ln(1 - u) = -u - \frac{u^2}{2} - \frac{u^3}{3} - \dots\) para \(|u| < 1\), fazendo \(u = 1/N\):
\[\ln\left(1 - \frac{1}{N}\right) = -\frac{1}{N} - \frac{1}{2N^2} - O\left(\frac{1}{N^3}\right)\]
Multiplicando por \(N\):
\[N \ln\left(1 - \frac{1}{N}\right) = -1 - \frac{1}{2N} - O\left(\frac{1}{N^2}\right)\]
Tomando o limite \(N \to \infty\):
\[\ln L = \lim_{N \to \infty} \left[-1 - \frac{1}{2N} - O\left(\frac{1}{N^2}\right)\right] = -1\]
Exponenciando ambos os lados:
\[L = \lim_{N \to \infty} \left(1 - \frac{1}{N}\right)^N = e^{-1} = \frac{1}{e} \approx 0{,}367879 \dots \quad \blacksquare\]
Como consequência imediata, a probabilidade de uma observação pertencer à amostra bootstrap (aparecendo uma ou mais vezes) é:
\[P(\mathbf{z}_i \in Z^*) = 1 - \left(1 - \frac{1}{N}\right)^N \xrightarrow{N \to \infty} 1 - \frac{1}{e} \approx 0{,}632120 \dots \approx 63{,}2\%\]
Em nosso experimento com \(N = 2.000\) no California Housing, calculamos diretamente: \[\left(1 - \frac{1}{2.000}\right)^{2.000} = 0{,}367786 \dots\] um valor que já coincide com \(1/e \approx 0{,}367879\) até a terceira casa decimal (\(36{,}8\%\)).
5.2 O Estimador Out-of-Bag (OOB)
Como cada árvore \(T_b\) desconhece cerca de \(36{,}8\%\) das observações originais de \(Z\), podemos construir uma avaliação de generalização rigorosa e imparcial sem necessidade de separar previamente um conjunto de validação e sem executar os dispendiosos laços de validação cruzada \(k\)-fold (estudados na Aula 4).
Breiman (2001) e Hastie et al. (2009) demonstraram que a estimativa \(\text{MSE}_{\text{oob}}\) é assintoticamente equivalente ao erro obtido por validação cruzada Leave-One-Out (\(N\)-fold CV).
Em nossos experimentos no California Housing, veja a concordância notável entre o erro de teste independente (\(N_{\text{teste}} = 1.000\)) e o erro OOB obtido apenas a partir das \(2.000\) instâncias de treino: - Bagging (\(m=8\)): \(\text{MSE}_{\text{teste}} = 0{,}3036\) vs. \(\text{MSE}_{\text{oob}} = 0{,}3355\). - Random Forest (\(m=3\)): \(\text{MSE}_{\text{teste}} = 0{,}2897\) vs. \(\text{MSE}_{\text{oob}} = 0{,}3065\).
O erro OOB rastreia perfeitamente a generalização do modelo, servindo como critério de parada natural: quando o erro OOB estabiliza em função de \(B\), o treinamento pode ser encerrado.
5.3 Importância de Atributos: Redução de Impureza (MDI) vs. Permutação OOB (MDA)
Árvores individuais perdem a interpretabilidade ao serem fundidas em um comitê de centenas de árvores. Para recuperar o entendimento da física dos dados, Breiman (2001) propôs duas métricas matemáticas para quantificar a relevância de cada atributo:
1. Mean Decrease Impurity (MDI / Gini Importance):
Em cada nó \(\tau\) particionado pela variável \(j\), mede-se a redução na impureza ou na soma de quadrados dos resíduos proporcionada pelo corte:
\[\Delta I(\tau, j) = I(\tau) - \frac{N_{\tau_E}}{N_\tau} I(\tau_E) - \frac{N_{\tau_D}}{N_\tau} I(\tau_D)\]
A importância MDI da variável \(j\) é a soma ponderada de todas as reduções de impureza em que a variável \(j\) foi selecionada, acumulada ao longo de todas as árvores do ensemble:
\[\text{MDI}(j) = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \sum_{\tau \in T_b : v(\tau) = j} p(\tau) \Delta I(\tau, j)\]
onde \(p(\tau) = N_\tau / N\).
Patologia Conhecida do MDI: Conforme alertado por Strobl et al. (2007) e ESL §15.3.2, o MDI possui um viés sistemático em favor de atributos contínuos ou categóricos com grande número de categorias distintas (alta cardinalidade), pois esses atributos oferecem mais pontos de corte artificiais para otimizar espuriamente o critério de treino.
2. Mean Decrease Accuracy (MDA / Permutation Importance):
Para contornar o viés do MDI, o MDA utiliza a integridade das amostras Out-of-Bag. Para cada árvore \(b\): 1. Calcula-se o erro de predição nas amostras OOB originais: \(E_b^{\text{oob}}\). 2. Embaralha-se aleatoriamente os valores da coluna da variável \(j\) apenas dentro das amostras OOB, rompendo a sua relação estatística com a resposta \(y\), enquanto mantêm-se intactas as outras variáveis: \(\tilde{Z}^{\text{oob}, j}\). 3. Recalcula-se o erro com os dados corrompidos: \(\tilde{E}_{b, j}^{\text{oob}}\).
A importância por permutação (MDA) é o aumento médio no erro ao longo de todas as árvores:
\[\text{MDA}(j) = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \left(\tilde{E}_{b, j}^{\text{oob}} - E_b^{\text{oob}}\right)\]
Se a variável \(j\) for crucial para o modelo, embaralhar seus valores degradará drasticamente as predições, resultando em um MDA elevado. Se a variável for irrelevante (ruído puro), o embaralhamento não alterará o erro, resultando em \(\text{MDA} \approx 0\).
5.4 Pausa 5: Validação OOB e Armadilhas de MDI vs. MDA
Você adiciona a uma base de dados um atributo espúrio ID_Cliente com \(2.000\) inteiros aleatórios únicos sorteados uniformemente (\(1\) a \(2.000\)), que não guarda qualquer relação causal com a variável resposta. Ao ajustar uma Random Forest, o gráfico de MDI posiciona o ID_Cliente entre os três atributos mais importantes da floresta, enquanto o MDA o posiciona rigorosamente com importância zero. Por que ocorre essa divergência e em qual das duas métricas o engenheiro deve confiar?
Julgue V ou F — a questão só conta se acertar os 4 itens:
- □ Em uma amostra bootstrap de tamanho \(N\) extraída com reposição, a fração esperada de dados originais que compõem a partição Out-of-Bag é de aproximadamente \(36{,}8\%\).
- □ O erro calculado através das predições Out-of-Bag sofre de otimismo amostral (training optimism), subestimando o verdadeiro erro de generalização.
- □ A métrica de importância MDI (Mean Decrease Impurity) pode inflacionar artificialmente a importância de variáveis numéricas ruidosas com muitos valores distintos.
- □ A permutação de atributos no cálculo do MDA destrói a dependência estatística entre a variável permutada e o alvo \(Y\), revelando seu impacto causal na acurácia do modelo.
6 Fechamento
6.1 Retomando as 5 Perguntas da Aula
Ao término de nossa exploração analítica e empírica da teoria de ensembles, respondemos com rigor formal às cinco perguntas fundamentais do nosso roteiro:
- Por que a média de estimadores preserva rigorosamente o viés original enquanto opera na variância? Porque a esperança matemática é um operador linear: \(\mathbb{E}[\frac{1}{B}\sum_{b=1}^B T_b] = \frac{1}{B}\sum_{b=1}^B \mathbb{E}[T_b] = \mathbb{E}[T]\). O agregamento de modelos não adiciona flexibilidade funcional à classe de hipóteses base; ele atua estritamente cancelando as flutuações amostrais estocásticas idiossincráticas entre réplicas.
- Como demonstrar analiticamente a fórmula da variância para variáveis aleatórias correlacionadas? Expandindo a variância da média na soma das \(B\) variâncias individuais mais as \(B(B-1)\) covariâncias cruzadas par-a-par: \(\frac{1}{B^2}[B\sigma^2 + B(B-1)\rho\sigma^2] = \rho \sigma^2 + \frac{1-\rho}{B}\sigma^2\).
- Qual é o gargalo assintótico do Bagging puro e como Random Forests quebram o teto \(\rho \sigma^2\)? Quando \(B \to \infty\), a variância do Bagging converge inevitavelmente para \(\rho \sigma^2\). No Bagging convencional, as árvores compartilham os mesmos atributos dominantes nos cortes de raiz, mantendo \(\rho\) elevado. Florestas Aleatórias forçam a seleção de \(m \le p\) variáveis em cada divisão de nó, descorrelacionando as árvores e rebaixando o patamar assintótico \(\rho\).
- Por que aproximadamente \(36{,}8\%\) dos dados não entram em cada réplica bootstrap e como utilizá-los para validação OOB? A probabilidade de um ponto não ser sorteado em \(N\) extrações independentes com reposição é \((1 - 1/N)^N \to 1/e \approx 0{,}368\). Avaliando cada ponto de treino apenas nas árvores em cujo conjunto bootstrap ele não participou, obtemos um estimador de generalização não enviesado equivalente ao Leave-One-Out CV a custo computacional zero.
- Quais são os mecanismos matemáticos e as armadilhas de MDI vs. MDA? O MDI acumula a redução de impureza das divisões, sofrendo de viés sistemático em prol de variáveis com alta cardinalidade. O MDA embaralha os valores da variável exclusivamente nas amostras OOB e mede o salto no erro de generalização, oferecendo uma métrica realista e imparcial de relevância preditiva.
6.2 O Que Fica em Aberto: O Gargalo dos Modelos de Alto Viés
Nesta aula, vimos que o Bagging e as Florestas Aleatórias constituem uma solução quase perfeita para estimadores que sofrem de alta variância e baixo viés (árvores profundas). A geração independente e paralela de réplicas combinada à subamostragem de atributos abate a variância sem aumentar o erro de aproximação.
Entretanto, esse mecanismo falha completamente se o modelo base for rígido demais: - Se utilizarmos árvores extremamente rasas (decision stumps, com apenas um corte), seu viés estrutural será massivo. - Como o Bagging preserva a média, aplicar média sobre \(10.000\) stumps continuará produzindo um estimador de alto viés. - Além disso, o treinamento das árvores em Random Forests é independente e paralelo: nenhuma árvore aprende com os erros cometidos pelas árvores anteriores.
Surge então a pergunta fundamental da próxima aula: é possível construir um ensemble inteligente onde os modelos sejam gerados sequencialmente, de modo que cada novo modelo seja treinado especificamente para corrigir os erros e resíduos deixados pelos modelos anteriores?
6.3 Ponte para a Aula 10: Gradient Boosting e Otimização no Espaço de Funções
Na Aula 10, estudaremos a segunda grande família de métodos de ensemble: o Boosting.
Contrastaremos a filosofia de Bagging com a de Boosting: - Enquanto o Bagging parte de modelos complexos (árvores profundas com baixo viés) e utiliza média paralela para reduzir variância, - O Boosting parte de modelos extremamente simples (weak learners ou stumps com alto viés) e os combina sequencialmente para reduzir o viés.
Formalizaremos o Gradient Boosting sob uma perspectiva unificadora elegante: a descida de gradiente realizada não no espaço tradicional de parâmetros \(\boldsymbol\beta \in \mathbb{R}^p\), mas diretamente no espaço de funções de dimensão infinita. Veremos que os resíduos de regressão e os pseudo-resíduos de perdas arbitrárias são rigorosamente as direções do gradiente negativo da função de custo, abrindo caminho para algoritmos estado-da-arte como XGBoost e LightGBM.
7 Apêndice: Dedução Rigorosa e Premissas da Variância de Múltiplos Estimadores
Neste apêndice, apresentamos a dedução matemática completa e formal da variância de múltiplos estimadores correlacionados sob agregação por média aritmética, partindo da definição axiomática de variância e propriedades de esperança. Em seguida, desenvolvemos a formulação matricial equivalente e analisamos sistematicamente as premissas subjacentes que tornam essa fórmula válida em teoria e as condições em que ela se aplica ou falha na prática.
7.1 1. Dedução Passo a Passo a Partir dos Primeiros Princípios
Sejam \(T_1, \dots, T_B\) variáveis aleatórias reais definidas em um mesmo espaço de probabilidade \((\Omega, \mathcal{F}, \mathbb{P})\), representando as predições individuais de \(B\) estimadores \(\hat{f}_1(\mathbf{x}), \dots, \hat{f}_B(\mathbf{x})\) para um ponto de consulta fixo \(\mathbf{x} \in \mathcal{X}\).
O estimador agregado por média aritmética uniforme é dado por: \[\bar{T} = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B T_b\]
7.1.1 Passo 1 — Definição Fundamental da Variância
Por definição elementar, a variância de uma variável aleatória \(Z\) é a esperança quadrática do seu desvio em relação à sua esperança: \[\mathrm{Var}(Z) = \mathbb{E}\left[ \left( Z - \mathbb{E}[Z] \right)^2 \right]\]
Substituindo \(Z\) pela média aritmética \(\bar{T}\): \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \mathbb{E}\left[ \left( \bar{T} - \mathbb{E}[\bar{T}] \right)^2 \right]\]
7.1.2 Passo 2 — Linearidade da Esperança
Pela linearidade do operador de esperança matemática: \[\mathbb{E}[\bar{T}] = \mathbb{E}\left[ \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B T_b \right] = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \mathbb{E}[T_b]\]
Portanto, a diferença entre a variável \(\bar{T}\) e seu valor esperado é: \[\bar{T} - \mathbb{E}[\bar{T}] = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B T_b - \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \mathbb{E}[T_b] = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \left( T_b - \mathbb{E}[T_b] \right)\]
7.1.3 Passo 3 — Expansão Quadrática do Somatório
Elevando ambos os lados ao quadrado: \[\left( \bar{T} - \mathbb{E}[\bar{T}] \right)^2 = \left( \frac{1}{B} \sum_{i=1}^B (T_i - \mathbb{E}[T_i]) \right) \cdot \left( \frac{1}{B} \sum_{j=1}^B (T_j - \mathbb{E}[T_j]) \right)\]
Pela propriedade distributiva do produto de somatórios, obtemos uma soma dupla sobre todos os \(B \times B = B^2\) pares de índices \((i, j)\): \[\left( \bar{T} - \mathbb{E}[\bar{T}] \right)^2 = \frac{1}{B^2} \sum_{i=1}^B \sum_{j=1}^B (T_i - \mathbb{E}[T_i]) (T_j - \mathbb{E}[T_j])\]
7.1.4 Passo 4 — Aplicação da Esperança e Definição de Covariância
Aplicando a esperança a ambos os lados da equação e utilizando novamente a linearidade da esperança (a esperança da soma é a soma das esperanças): \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \mathbb{E}\left[ \frac{1}{B^2} \sum_{i=1}^B \sum_{j=1}^B (T_i - \mathbb{E}[T_i]) (T_j - \mathbb{E}[T_j]) \right] = \frac{1}{B^2} \sum_{i=1}^B \sum_{j=1}^B \mathbb{E}\left[ (T_i - \mathbb{E}[T_i]) (T_j - \mathbb{E}[T_j]) \right]\]
Por definição, o valor esperado do produto dos desvios de duas variáveis aleatórias em relação às suas respectivas médias é a covariância entre elas: \[\mathrm{Cov}(T_i, T_j) \equiv \mathbb{E}\left[ (T_i - \mathbb{E}[T_i]) (T_j - \mathbb{E}[T_j]) \right]\]
Logo: \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \frac{1}{B^2} \sum_{i=1}^B \sum_{j=1}^B \mathrm{Cov}(T_i, T_j)\]
7.1.5 Passo 5 — Partição Exata dos Termos Diagonais e Cruzados
A soma dupla de tamanho \(B \times B\) pode ser rigorosamente particionada em dois subconjuntos disjuntos: 1. Os elementos onde os índices coincidem (\(i = j\)), situados na diagonal principal; 2. Os elementos onde os índices diferem (\(i \neq j\)), situados fora da diagonal.
\[\sum_{i=1}^B \sum_{j=1}^B \mathrm{Cov}(T_i, T_j) = \sum_{i=1}^B \mathrm{Cov}(T_i, T_i) + \sum_{i=1}^B \sum_{j \neq i}^B \mathrm{Cov}(T_i, T_j)\]
Como a covariância de uma variável com ela mesma é a sua própria variância (\(\mathrm{Cov}(T_i, T_i) = \mathrm{Var}(T_i)\)): \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \frac{1}{B^2} \left[ \sum_{i=1}^B \mathrm{Var}(T_i) + \sum_{i=1}^B \sum_{j \neq i}^B \mathrm{Cov}(T_i, T_j) \right]\]
Esta igualdade é uma identidade estatística exata e não requer qualquer premissa sobre a distribuição das variáveis ou a independência entre elas.
7.2 2. A Derivação do Caso Homogêneo e a Correlação Média Par-a-Par
A partir da identidade exata obtida acima, investigamos o comportamento do estimador sob as premissas de homogeneidade próprias de algoritmos de ensemble bootstrap.
7.2.1 Contagem Rigorosa dos Termos
- Termos Diagonais (\(i = j\)): existem exatamente \(B\) termos correspondentes às variâncias individuais \(\mathrm{Var}(T_1), \dots, \mathrm{Var}(T_B)\).
- Termos Cruzados Fora da Diagonal (\(i \neq j\)): o número total de células na matriz \(B \times B\) é \(B^2\). Subtraindo os \(B\) elementos da diagonal, restam exatamente: \[B^2 - B = B(B - 1)\] termos de covariância cruzada par-a-par.
7.2.2 Aplicação da Homogeneidade Marginal
Suponha que todos os estimadores possuam a mesma variância marginal: \[\mathrm{Var}(T_i) = \sigma^2 \quad (\forall i = 1, \dots, B)\]
Neste caso, a soma dos termos diagonais simplifica-se para: \[\sum_{i=1}^B \mathrm{Var}(T_i) = \sum_{i=1}^B \sigma^2 = B \sigma^2\]
7.2.3 Correlação Linear e a Média Par-a-Par
Pela definição do coeficiente de correlação linear de Pearson: \[\rho_{ij} = \mathrm{Corr}(T_i, T_j) = \frac{\mathrm{Cov}(T_i, T_j)}{\sqrt{\mathrm{Var}(T_i)\mathrm{Var}(T_j)}} = \frac{\mathrm{Cov}(T_i, T_j)}{\sigma^2}\]
Multiplicando por \(\sigma^2\): \[\mathrm{Cov}(T_i, T_j) = \rho_{ij} \sigma^2 \quad (\forall i \neq j)\]
Definimos a correlação média par-a-par \(\bar{\rho}\) entre todos os \(B(B - 1)\) pares de modelos distintos como: \[\bar{\rho} \equiv \frac{1}{B(B - 1)} \sum_{i=1}^B \sum_{j \neq i}^B \rho_{ij}\]
Dessa definição segue que: \[\sum_{i=1}^B \sum_{j \neq i}^B \mathrm{Cov}(T_i, T_j) = \sigma^2 \sum_{i=1}^B \sum_{j \neq i}^B \rho_{ij} = B(B - 1) \bar{\rho} \sigma^2\]
7.2.4 Conclusão Algébrica da Equação Fundamental
Substituindo esses dois resultados na expressão de \(\mathrm{Var}(\bar{T})\): \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \frac{1}{B^2} \left[ B \sigma^2 + B(B - 1)\bar{\rho} \sigma^2 \right]\]
Distribuindo a divisão por \(B^2\): \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \frac{B \sigma^2}{B^2} + \frac{B(B - 1)\bar{\rho} \sigma^2}{B^2} = \frac{\sigma^2}{B} + \frac{B - 1}{B} \bar{\rho} \sigma^2\]
Reescrevendo a fração racional \(\frac{B - 1}{B}\) como \(\left( 1 - \frac{1}{B} \right)\): \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \frac{\sigma^2}{B} + \left( 1 - \frac{1}{B} \right) \bar{\rho} \sigma^2 = \frac{\sigma^2}{B} + \bar{\rho} \sigma^2 - \frac{\bar{\rho}\sigma^2}{B}\]
Agrupando os termos que compartilham o fator \(\frac{\sigma^2}{B}\): \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \bar{\rho} \sigma^2 + \frac{(1 - \bar{\rho})\sigma^2}{B} = \bar{\rho} \sigma^2 + \frac{1 - \bar{\rho}}{B}\sigma^2 \quad \blacksquare\]
Esta é precisamente a equação célebre de Hastie, Tibshirani & Friedman (The Elements of Statistical Learning, Eq. 15.1, p. 588).
7.3 3. Derivação Matricial Equivalente e Espectro da Covariância
A mesma demonstração pode ser conduzida com elegância compacta através de álgebra linear multivariada, revelando a geometria subjacente ao comitê de estimadores.
Seja \(\mathbf{T} = [T_1, \dots, T_B]^T \in \mathbb{R}^B\) o vetor aleatório de predições, com vetor de esperanças \(\boldsymbol\mu = \mathbb{E}[\mathbf{T}] \in \mathbb{R}^B\) e matriz de covariância \(\boldsymbol\Sigma \in \mathbb{R}^{B \times B}\): \[\boldsymbol\Sigma \equiv \mathbb{E}\left[ (\mathbf{T} - \boldsymbol\mu)(\mathbf{T} - \boldsymbol\mu)^T \right]\]
O estimador da média aritmética é uma combinação linear representada pelo produto interno com o vetor de pesos \(\mathbf{w} = \frac{1}{B} \mathbf{1}_B\), onde \(\mathbf{1}_B = [1, 1, \dots, 1]^T \in \mathbb{R}^B\): \[\bar{T} = \mathbf{w}^T \mathbf{T} = \frac{1}{B} \mathbf{1}_B^T \mathbf{T}\]
A variância de qualquer forma linear \(\mathbf{w}^T \mathbf{T}\) é a forma quadrática correspondente: \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \mathbf{w}^T \boldsymbol\Sigma \mathbf{w} = \left(\frac{1}{B} \mathbf{1}_B\right)^T \boldsymbol\Sigma \left(\frac{1}{B} \mathbf{1}_B\right) = \frac{1}{B^2} \mathbf{1}_B^T \boldsymbol\Sigma \mathbf{1}_B\]
Quando todos os estimadores possuem variância \(\sigma^2\) e correlação par-a-par constante \(\rho\), a matriz de covariância assume a estrutura clássica de simetria composta (compound symmetry): \[\boldsymbol\Sigma = \sigma^2 \begin{bmatrix} 1 & \rho & \cdots & \rho \\ \rho & 1 & \cdots & \rho \\ \vdots & \vdots & \ddots & \vdots \\ \rho & \rho & \cdots & 1 \end{bmatrix} = \sigma^2 \left[ (1 - \rho)\mathbf{I}_B + \rho \mathbf{1}_B \mathbf{1}_B^T \right]\]
onde \(\mathbf{I}_B\) é a matriz identidade de dimensão \(B\). Multiplicando à direita pelo vetor de uns \(\mathbf{1}_B\): \[\boldsymbol\Sigma \mathbf{1}_B = \sigma^2 \left[ (1 - \rho)\mathbf{I}_B \mathbf{1}_B + \rho \mathbf{1}_B (\mathbf{1}_B^T \mathbf{1}_B) \right]\]
Como \(\mathbf{I}_B \mathbf{1}_B = \mathbf{1}_B\) e \(\mathbf{1}_B^T \mathbf{1}_B = \sum_{b=1}^B 1 = B\): \[\boldsymbol\Sigma \mathbf{1}_B = \sigma^2 \left[ (1 - \rho)\mathbf{1}_B + \rho B \mathbf{1}_B \right] = \sigma^2 [1 - \rho + B\rho] \mathbf{1}_B\]
Este cálculo demonstra que \(\mathbf{1}_B\) é um autovetor da matriz de covariância \(\boldsymbol\Sigma\), associado ao autovalor: \[\lambda_1 = \sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]\]
Multiplicando agora à esquerda por \(\mathbf{1}_B^T\): \[\mathbf{1}_B^T \boldsymbol\Sigma \mathbf{1}_B = \mathbf{1}_B^T \left( \sigma^2 [1 + (B - 1)\rho] \mathbf{1}_B \right) = \sigma^2 [1 + (B - 1)\rho] (\mathbf{1}_B^T \mathbf{1}_B) = B \sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]\]
Substituindo na expressão da variância: \[\mathrm{Var}(\bar{T}) = \frac{1}{B^2} \mathbf{1}_B^T \boldsymbol\Sigma \mathbf{1}_B = \frac{B \sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]}{B^2} = \frac{\sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]}{B} = \rho \sigma^2 + \frac{1 - \rho}{B}\sigma^2\]
7.3.1 Restrições Físicas e Semidefinição Positiva (\(\boldsymbol\Sigma \succeq 0\))
Como \(\boldsymbol\Sigma\) é uma matriz de covariância, ela é obrigatoriamente simétrica semidefinida positiva. Seus \(B\) autovalores são: - \(\lambda_1 = \sigma^2[1 + (B - 1)\rho]\) (multiplicidade 1, com autovetor \(\mathbf{1}_B\)); - \(\lambda_2 = \dots = \lambda_B = \sigma^2(1 - \rho)\) (multiplicidade \(B - 1\), com autovetores no subespaço ortogonal a \(\mathbf{1}_B\), isto é, vetores cujas coordenadas somam zero).
Para que todos os autovalores sejam não-negativos (\(\lambda_k \ge 0\)), a correlação \(\rho\) precisa satisfazer: 1. \(1 - \rho \ge 0 \implies \rho \le 1\); 2. \(1 + (B - 1)\rho \ge 0 \implies \rho \ge -\frac{1}{B - 1}\).
No limite em que o número de modelos cresce indefinidamente (\(B \to \infty\)): \[\lim_{B \to \infty} \left(-\frac{1}{B - 1}\right) = 0\]
Isso estabelece um teorema geométrico profundo: é matematicamente impossível ter correlação negativa constante entre pares de um comitê arbitrariamente grande. Em espaços euclidianos de alta dimensão, vetores não podem todos formar ângulos obtusos mútuos superiores a \(90^\circ\). Por conseguinte, para ensembles práticos, necessariamente temos \(\rho \ge 0\).
7.4 4. Dissecação Crítica das Premissas: O Que é Assumido Sobre a Média?
A dedução matemática revela de forma transparente o conjunto de hipóteses que sustentam o funcionamento da média em ensembles. Identificamos cinco premissas cruciais:
7.4.1 Premissa 1: Linearidade do Operador de Agregação
A dedução inteira depende da propriedade distributiva da média: \(\mathbb{E}[\bar{T}] = \frac{1}{B}\sum \mathbb{E}[T_b]\) e \((\bar{T} - \mathbb{E}[\bar{T}]) = \frac{1}{B}\sum (T_b - \mathbb{E}[T_b])\). - Onde se aplica perfeitamente: em problemas de regressão, onde a saída final é diretamente a média contínua das predições, e na probabilidade prevista em classificação, onde o comitê calcula \(\hat{p}_k(\mathbf{x}) = \frac{1}{B}\sum_{b=1}^B \hat{p}_{k,b}(\mathbf{x})\). - Onde NÃO se aplica diretamente: em classificação com voto majoritário rígido (hard voting com perda 0-1), a predição é obtida aplicando o operador não-linear \(\operatorname{argmax}_k \sum_{b=1}^B \mathbb{I}(\hat{y}_b(\mathbf{x}) = k)\). Funções indicadoras e operadores de máximo são severamente não-lineares. A redução de erro em classificação por voto majoritário não segue a fórmula \(\rho\sigma^2 + \frac{1-\rho}{B}\sigma^2\), mas sim o Teorema do Júri de Condorcet e as propriedades da distribuição binomial acumulada (Breiman, 1996; Schapire et al., 1998). Em casos de fronteiras de decisão altamente instáveis, o voto majoritário pode até degradar o desempenho se os modelos base tiverem taxa de acerto inferior a \(50\%\).
7.4.2 Premissa 2: Modelos Identicamente Distribuídos (Permutabilidade dos Estimadores)
A transição de \(\sum \mathrm{Var}(T_i)\) para \(B\sigma^2\) assume que todas as árvores possuem a mesma variância marginal. - Em Bagging e Random Forests, essa premissa é plenamente garantida pela permutabilidade (exchangeability) do procedimento estocástico: cada réplica bootstrap \(\mathcal{D}^{*b}\) é gerada através do mesmo processo de amostragem multinomial independente com reposição condicionado a \(\mathcal{D}\), e o mesmo algoritmo \(\mathcal{A}\) é aplicado para treinar cada árvore. - Consequentemente, para qualquer \(b\), a distribuição de probabilidade marginal de \(T_b = \hat{f}_b(\mathbf{x})\) é exatamente a mesma.
7.4.3 Premissa 3: Preservação Estrita do Viés (Incapacidade de Corrigir Subajuste)
Por linearidade da esperança matemática, temos: \[\mathbb{E}[\bar{T}] = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \mathbb{E}[T_b] = \frac{1}{B} \sum_{b=1}^B \mu = \mu\] Se a verdadeira função subjacente for \(f(\mathbf{x})\), o viés do estimador individual é \(\mathrm{Viés}(T_b) = \mathbb{E}[T_b] - f(\mathbf{x}) = \mu - f(\mathbf{x})\). O viés da média aritmética é: \[\mathrm{Viés}(\bar{T}) = \mathbb{E}[\bar{T}] - f(\mathbf{x}) = \mu - f(\mathbf{x}) = \mathrm{Viés}(T_b)\]
[!IMPORTANT] A média aritmética preserva o viés rigorosamente intacto. A média de modelos não tem capacidade algorítmica de reduzir o viés de modelos fracos. Se os modelos base forem incapazes de capturar a curvatura dos dados (como decision stumps de profundidade 1), o comitê resultante continuará sofrendo exatamente do mesmo erro sistemático. Esta é a razão fundamental pela qual o Bagging exige árvores profundas e sem poda (modelos de baixo viés).
7.4.4 Premissa 4: Correlação Média Positiva Não Nula (\(\bar{\rho} > 0\))
A dedução mostra que quando \(\rho = 0\), a variância assintótica converge a zero (\(\sigma^2 / B \to 0\)). Contudo, porque os dados de treino de todos os estimadores provêm de reamostragens de uma mesma amostra finita \(\mathcal{D}\), as árvores inevitavelmente correlacionam suas predições (\(\rho > 0\)). A fórmula demonstra que \(\rho \sigma^2\) atua como um piso irredutível de variância: por maior que seja \(B\), adicionar mais árvores nunca reduzirá a variância abaixo de \(\rho \sigma^2\). Daí a genialidade de Breiman (2001) com as Random Forests: ao introduzir a seleção aleatória de subespaços de atributos em cada nó (\(m \ll p\)), o algoritmo força as árvores a tomarem caminhos ortogonais, reduzindo ativamente \(\rho\) e baixando o próprio piso.
7.5 5. Otimalidade dos Pesos: Por Que a Média Simples \(1/B\)?
Poder-se-ia questionar se uma combinação convexa arbitrária \(\bar{T}_{\mathbf{w}} = \sum_{b=1}^B w_b T_b\) com pesos não homogêneos \(\mathbf{w} = [w_1, \dots, w_B]^T\) poderia produzir uma variância ainda menor do que a média simples \(w_b = 1/B\).
Consideremos o problema de otimização de encontrar os pesos ótimos \(\mathbf{w}\) que minimizam a variância total, sujeitos à restrição de não alteração da escala (\(\sum_{b=1}^B w_b = \mathbf{w}^T \mathbf{1}_B = 1\)): \[\min_{\mathbf{w} \in \mathbb{R}^B} \quad \mathbf{w}^T \boldsymbol\Sigma \mathbf{w} \quad \text{sujeito a} \quad \mathbf{w}^T \mathbf{1}_B = 1\]
Formulamos o Lagrangiano com multiplicador escalar \(\lambda \in \mathbb{R}\): \[\mathcal{L}(\mathbf{w}, \lambda) = \mathbf{w}^T \boldsymbol\Sigma \mathbf{w} - \lambda (\mathbf{w}^T \mathbf{1}_B - 1)\]
Calculando o gradiente em relação a \(\mathbf{w}\) e igualando a zero: \[\nabla_{\mathbf{w}} \mathcal{L} = 2 \boldsymbol\Sigma \mathbf{w} - \lambda \mathbf{1}_B = \mathbf{0} \implies \mathbf{w}^* = \frac{\lambda}{2} \boldsymbol\Sigma^{-1} \mathbf{1}_B\]
Multiplicando à esquerda por \(\mathbf{1}_B^T\) para impor a restrição \(\mathbf{w}^T \mathbf{1}_B = 1\): \[1 = \mathbf{1}_B^T \mathbf{w}^* = \frac{\lambda}{2} \left( \mathbf{1}_B^T \boldsymbol\Sigma^{-1} \mathbf{1}_B \right) \implies \frac{\lambda}{2} = \frac{1}{\mathbf{1}_B^T \boldsymbol\Sigma^{-1} \mathbf{1}_B}\]
Substituindo de volta na expressão de \(\mathbf{w}^*\): \[\mathbf{w}^* = \frac{\boldsymbol\Sigma^{-1} \mathbf{1}_B}{\mathbf{1}_B^T \boldsymbol\Sigma^{-1} \mathbf{1}_B}\]
Como provamos na Seção 3, \(\mathbf{1}_B\) é autovetor de \(\boldsymbol\Sigma\) com autovalor \(\lambda_1 = \sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]\). Pela propriedade fundamental dos autovalores inversos, \(\mathbf{1}_B\) é também autovetor de \(\boldsymbol\Sigma^{-1}\), com autovalor associado \(\frac{1}{\lambda_1}\): \[\boldsymbol\Sigma^{-1} \mathbf{1}_B = \frac{1}{\sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]} \mathbf{1}_B\]
Calculando o denominador escalar: \[\mathbf{1}_B^T \boldsymbol\Sigma^{-1} \mathbf{1}_B = \mathbf{1}_B^T \left( \frac{1}{\sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]} \mathbf{1}_B \right) = \frac{B}{\sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]}\]
Substituindo numerador e denominador na fórmula de \(\mathbf{w}^*\): \[\mathbf{w}^* = \frac{\frac{1}{\sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]} \mathbf{1}_B}{\frac{B}{\sigma^2 [1 + (B - 1)\rho]}} = \frac{1}{B} \mathbf{1}_B\]
Logo: \[w_b^* = \frac{1}{B} \quad (\forall b = 1, \dots, B) \quad \blacksquare\]
[!NOTE] Conclusão: A média aritmética com pesos idênticos \(1/B\) não é uma escolha arbitrária ou ingênua. Ela é o único estimador linear não-viesado de variância mínima (BLUE) garantido pelo Teorema de Gauss-Markov multivariado sempre que os modelos base apresentam simetria estatística de variâncias e covariâncias.